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Luiz Carlos Merten

09 Novembro 2006 | 08h35

Fui ontem jantar com Leila Reis e Dib Carneiro num japonês da Vila Madalena. Não sei o nome, mas fica na rua Jericó, onde imagino que não exista outro japonês. É muito bom. Nunca comi temaki, o cone, mais crocante, nem no mais sofisticado japonês dos Jardins ou da Liberdade. Lá estava Marcelo Gomes com uma turma de amigos. Ele vai, na verdade nós vamos, para o Festival de Tessalônica, na Grécia, no fim de semana que vem. O Céu de Suely, de Karin Aïnouz, vai participar da competição e haverá uma homenagem ao cinema brasileiro, com a apresentação de 18 filmes. O festival também vai homenagear Wim Wenders, exibindo a íntegra da obra dele (todos os 27 filmes), o que vai ser uma oportunidade e tanto para reavaliar o autor que, nos anos 80, era chamado de ‘Sr. Cinema’. Marcelo aproveita o quadro de Tessalônica para lançar Cinema, Aspirinas e Urubus na Grécia. O jantar foi muito agradável e divertido, regado a conversas sobre cinema, Lá pelas tantas, o assunto caiu em Almodóvar, já que amanhã estréia Volver. É um dos meus filmes preferidos de Pedrito. Leila e Dib me confessaram que o preferido deles é Fale Com Ela. Não sei, sinceramente, se tenho um preferido, mas gosto muito do bloco formado por Carne Trêmula, Tudo Sobre Minha Mãe, Fale Com Ela e Volver, que bem poderia se chamar Tudo Sobre Minha Mãe 2. Em Cannes, onde o filme integrou a competição, em maio, Almodóvar não escondeu sua decepção por não ter recebido a Palma de Ouro. Eram tantos jornais e críticos a lhe dizerem que era o favorito para a Palma que ele viajou. Na coletiva dos vencedores (ganhou o prêmio de roteiro e as atrizes dividiram o prêmio de interpretação feminina), ele disse que chegar com panca de vencedor é uma maldição, porque você termina não ganhando. Com Volver ocorreu uma coisa curiosa. Gostei do filme, quando o vi em Cannes, mas gostei mais quando revi no Rio e mais ainda quando trivi na Mostra. Almodóvar disse uma coisa bonita. Que, de todos os seus filmes, este é o que o reconcilia com a Mancha, com a sua juventude, as suas raízes e consigo mesmo. É um grande, um maravilhoso diretor. Entende a alma feminina como só os maiores (Mankiewicz, Cukor, Mizoguchi e Bergman)entenderam. Confesso que existe um miolo na obra de Almodóvar que não curto muito, a transição da primeira fase, a kitsch, para a segunda, da maturidade. Depois de Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos, ele ficou ziguezagueando – Atame, De Salto Alto, Kika, A Flor do Meu Segredo, que têm coisas legais, claro, mas não são grandes Almodóvares (no plural). Carne Trêmula marcou a virada. O filme ainda marcou, para mim, a descoberta de Ruth Rendell, que Chabrol já havia filmado (Mulheres Diabólicas/La Cérémonie). Sou leitor compulsivo de policiais. Passei a devorar Ruth Rendell, como devoro Agatha Christie e Georges Simenon. (Só para esclarecer meu gosto por policiais – acho Patrícia Melo média e não consigo ler P.D. James. Não entro nos livros dela de jeito nenhum). A partir de Carne Trêmula, o cinema de Almodóvar virou outra coisa, mais complexa e rica. Confesso que, desta grande fase, só não gosto muito de Má Educação, mas aí Almodóvar estava falando dele e faltou objetividade. É melhor quando ele se projeta nas suas mulheres, inspiradas, como ele confessa, na mãe, nas irmãs e nas tias, para falar de si.