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Almodóvar, sempre ele

Luiz Carlos Merten

20 Julho 2007 | 15h07

Vocês devem estranhar muito. Um dia posto quatro, cinco ou mais textos e no outro nada. Mas ontem corri feito um doido, um pouco porque tinha muitos textos para redigir (para o Caderno 2 e o Telejornal), mas também porque tinha, à noite, o debate sobre Almodóvar na Fnac. Não sei quantos de vocês estiveram por lá, nem se foram. Alguns, com certeza, porque se identificaram e foram muito carinhosos comigo. Tenho de confessar que não gostei nem um pouco do tal debate. Me pareceu uma coisa muito esquizofrênica, muito sem centro. Rubens Ewald Filho tem muito a dizer sobre Almodóvar, eu acredito que também tenho, mas a falta de moderação transformou o encontro numa coisa muito dispersiva. Foi como eu senti. Pode até ser que vocês tenham gostado, ou não. De qualquer maneira, só na hora fui apresentado à tal caixa da Fox, com quatro filmes. Tirando Má Educação, do qual não gosto, temos ali três grandes filmes de Almodóvar – Tudo Sobre Minha Mãe, Fale com Ela e Volver. Se fosse possível substituir Mala Educación por Carne Trêmula, teríamos o melhor do diretor que Rubinho definiu como o melhor do mundo, o maior cineasta vivo. No finalzinho, resolvi polemizar, meio de brincadeira. Gosto muito de Almodóvar, mas não creio que seja o número 1. Se não for ele, quem é, disparou Rubinho? Dei algumas sugestões que sabia que iriam tirá-lo do sério – Abbas Kiarostami, Manoel de Oliveira, Michael Mann. Michael quem?, ele perguntou. Rubinho é muito engraçado. Sobre Kiarostami, ele não quis nem falar. Sobre Manoel de Oliveira, disse que já morreu e Leon Cakoff está sendo procurado pelo crime. Ha-ha. Dei minha contribuição ao clima de humor, rebatendo a acusação que foi feita, de que os homens são sempre escrotos no cinema de Almodóvar. Não sei se é a palavra certa. Me parecem mais fracos, pusilânimes, como resultado da própria formação de Almodóvar. Psicanálise elementar. Ele não teve referência paterna. Foi criado por mulheres. Nada mais explicativo que elas sejam tão fortes no seu cinema (e na sua visão da organização social). Mas, enfim, brinquei – disse que escrotos podiam ser eles, meus companheiros de debate. Eu era sensível. E disse, já prevendo a gozação, que choro cada vez que vejo Volver e a Penelope Cruz canta o tema, ou melhor, dubla a canção-título. Virou a maior zorra. Fala, sensível. E aí, sensível? Chega de brincadeira! Eu sou é duro de matar, viram? Por via das dúvidas, vou deixar de ver Volver, que é melhor maneira, para não dizer garantia, de não chorar.