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Cultura » Almodóvar! Penelope!

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Luiz Carlos Merten

04 Dezembro 2009 | 13h19

Falei ontem, en passant, da reação do crítico da revista ‘Cinéaste’, que ganhei de presente, sobre o filme de Almodóvar, ‘Abraços Partidos’, que estreia hoje na cidade. Ao contrário da maioria dos coleguinhas em Cannes, gostei muito do filme e o achei mais uma obra de maturidade do autor. O curioso é que meu colega Luiz Zanin Oricchio também amou – somos exceções -, o que descartou a possibilidade de um gostei/não gostei. Aliás, de vez em quando brincamos – gostei/não gostei não dá, mas se quiserem (o editor) um gostei/e eu mais ainda, a gente topa. O que quero dizer é que outro dia, zapeando na TV, assisti a um trecho de ‘A Lei do Desejo’, um Almodóvar da primeira fase, imediatamente anterior a ‘Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos’, que é de 1988. Era a fase escrachada, transgressora, em que Pedrito aparecia nos próprios filmes, sendo famosa sua presença com meia arrastão e brincos em ‘Labirinto de Paixões’. Eu gostava muito de alguns daqueles filmes – ‘Matador’, ‘A Lei do Desejo’ -, mas agora me senti meio voyeur assistindo àquela cena do garoto que se contorce e masturba, de bumbum para a câmera. Faço a ressalva de que não vi o filme inteiro e a imagem, descontextualizada, me pareceu gratuita, ao contrário desse momento sublime de ‘Abraços Partidos’ em que o milionário contrata equipe para filmar os encontros de Penelope com seu diretor (e amante) e depois faz com que uma leitora de lábios leia o que ela está dizendo para ele. A própria Penelope irrompe na sala e se dubla, dizendo ‘Eu te amo’ ao amante, o que imediatamente provoca a reação do milionário com quem se casou por conveniência. É interessante como Almodóvar, cinéfilo de carteirinha, faz um cinema de citações (e até autorreferencial), aqui retomando, entre outras coisas, a dublagem de ‘Mulheres à Beira de Um Ataque’. O novo filme mistura gêneros e estilos, melodrama com noir, e joga com ambivalências e duplos. É tão bacana. Em Cannes, em maio, a assessoria me havia feito escolher entre Pedro e Penelope (não poderia entrevistar os dois). Escolhi a atriz, que havia acabado de ganhar o Oscar, mas depois, por sorte minha – que horror! -, Penelope estava se sentindo mal, reduziu as entrevistas, os grupos foram ampliados e, como ‘consolação’, ganhei também o Almodóvar. A entrevista está no ‘Caderno 2’ de hoje. Vejam o filme. Penelope é um assombro. Ela disse que conhece Almodóvar desde os 17 anos e ele é um farol para ela, na arte como na vida. Ele retribuiu. Disse que, embora a conheça tanto, Penelope ainda o surpreende. Para ver quanto consegue surpreender, corra a ver ‘Los Abrazos Rotos’. Estou com preguiça de pesquisar para ver quem derrotou Penelope, quando foi indicada para o Oscar de melhor atriz por ‘Volver’. Certamente era alguém que não merecia como ela. Mas vamos esperar. Algum de vocês vai fazer a pesquisa por mim, tenho certeza.