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Luiz Carlos Merten

02 Abril 2011 | 11h30

Estou chocado, mas antes de dar cionta desse choque permitam-me – meu querido diário, ou meu querido blog – dar conta do que anda se passando comigo. Deasde que voltei na quarta-feira, de Los Angeles, entrei numa roda viva que agora inclui sessões diárias de fisioterapia. Estou com um problema na mão – a única! Não se trata de uma simples tendinite, mas volta e meia sinto que estou perrdendo a força na mão e quando estou digitando os músdculos ficam meio retesados, como se a mão fosse travar. A fisioterapia, em si, me toma uma hora, ou menos, mas o ato de ir e voltar, no caótico trânsito dessa cidade, tem me tomado as tardes. A fisioterapia consiste em choquie elétricos, com elétrodos, para ativar a circulação da mão, mas não é a este choque que me refiro. Havia registrado aqui, no meu único post de L.A., que assisti ao piloto da minissérie ‘Mildred Pierce’, que Todd Haynes adaptou do romance de James Cain. Achei uma coisa extraordinária e estava formulando 1001 planos paras acionar a asssessoria localç da HBO e tentar conseguir uma entrevuista com o autor de ‘Lomnge do Paraíso’ e ‘Não Estou Lá’. Fui atriopeladio, ou pelo menos assim me sdinto. Tomei ontem um táxi e, folheando o jornal de distribuição gratuita ‘Destak’, descobri que ‘Mildred Pierce’ estreia amanhã no Brasil. Como? Fui ao ‘Telejornal’, que já havia rodado, e me disseram que a\ assessoria fez de tudo para sonegar as informações para não minizar a importâsncvia de outro lançamento da HBO neste domingo, desta vez a minissérie brasileira ‘Mulher de Fases’, assinada por Ana Luiza Azevedo, da Casa de Cinema de Porto Alegre. Respeito muito o trabalho de Ana Luiza e confesso que fiz das tripas coração para que, não apenas ela, pelo belíssimo ‘Antes Que o Mundo Acabe’, mas também Wagner Moura, por ‘Tropa de Elite 2’, Ana Paula Arósio, por ‘Como Esquecer’, e Rodrigo Siqueira, pelo deslumbrante ‘Terra Deu, Terra Come’, fossem os vencedores do prêmio da APCA, para os melhores do ano passado. Torço para que a minissérie da Ana seja boa, mas, desculpem – aloô! -, ‘Mildred Pierce’ promete, pelo que vi, ser um acontecimento tão grande na história da TV, e de seu autor, como foram no passado ‘Berlin Alexanderplatz’, de Rainer Werner Fassbinder, e a ‘Laura Palmer’ de David Lynch. Vocês acham que exagero? Nunca tive medo de correr riscos em defesa de minhas escolhas estéticas. ‘Mildred Pierce’ não é um Todd Haynes de vanguarda, como ‘Veneno’ ou ‘I’m not There’, mas, como Fassbinder e Lynch, sabendo estar trabalhando para um meio massivo como a TV, mesmo paga, o diretor não radicaliza tanto na linguiagwem para radicalizar nos temas. Vamos por partes, como diria o esquartejador. James Cain criou fama como autor noir, de romances como ‘O Carteiro Bate à Sua Porta’, filmado por Luchino Visconti, Tay Garnett e Bob Rafelson, e ‘Double Indemnity’, que originou ‘Pacto Sinistro’, de Billy Wilder. Mas há outro James Cain, um romancista na linha social de Émile Zola ou Theodore Dreiser, e ‘Mildred Pierce’ é principalmente um estudo dos costumes na sociedade norte-americana que estava emergindo da 2ª Guerra. Mildred Pierce tenta construir uma vida melhor para a filha. É uma mulher dividida entre a maternidade e a carreira e o ponto de Cain, como de Todd Haynes, é que a primeira pode ser muito mais letal (ou perigosa), primcipalmente quando mãe e filha entram em atrito pelo mesmo homem. O romance já havia sido filmado por Michael Curtiz nos anos 1940 e deu o Oscar para Joan Crawford. Por melhor que seja o filme antigo – Pedro Almodóvar é loucvo por ele -, ‘Almas em Conflito’, título brassileiro, é um veículo para Joan, que, na época, já aplacara seu vulcão sexual e projetava a imagem de uma fria mulher de negócio. O erotisdmo, no filme de Curtiz, ficava com a filha, Ann Blyth, e ela era convenientemente punida por seu comportamento, como exigia o Código Hays. Haynes, livre desses constrangimentos, devolve a ‘Mildred Pierce’ suas raízes sexuais e proporciona a Kate Winslet, que faz o papel, a chance de mais uma interpretação rica e nuançada. Insisto que estiou em choque. Se era para não ofuscar a produção brasileira da HBO, por que raios a cúpula (cópula?) da emissora no Brasil decidiu quwe deviam estrear no mesmo dia. Aguardem amanhã. A HBO tem produzido grandes coisas, minisséries e filmes, mas sua história vai se dividir em antes e depois de ‘Mildred Pierce’.