Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Alma vascaína

Cultura

Luiz Carlos Merten

09 Dezembro 2008 | 14h30

Lúcia, minha filha, gremista doente – eu sou Inter – quase enfartou com a vitória do São Paulo no domingo. Ontem, estávamos os dois em casa no horário do almoço e assistimos ao Globo Esporte. A homenagem da emissora ao tricampeonato do São Paulo foi chocha, para dizer-se o mínimo. Muito mais bonita foi a visão do resultado do ângulo do Grêmio. John Ford, a grandeza dos derrotados. Isso sim é que é rime, me dizia a Lúcia, mas ela é suspeita. (A propósito, vocês já pensaram que, com sua última conquista, o Inter é o único clube brasileiro vencedor de TODOS os títulos a que um time nacional pode aspirar? O único?) Mas o que me leva a falar da final do Brasileiro não é nada disso e sim, os quatro ou cinco minutos mais preciosos que vi recentemente na TV e foi na Globo, ontem. Que ‘A Favorita’, que nada. O Globo Esporte dedicou um bloco ao rebaixamento do Vasco. Antes do programa, propriamente dito, permitam-me relatar uma experiência pessoal. Durante o Festival do Rio, entre o fim de setembro e o começo de outubro, andava direto de táxi da Cinelândia, perto de onde fica a sucursal carioca do ‘Estado’, para Copacabana, Ipanema e Botafogo, onde ficavam os principais pontos de exibição dos filmes. O Vasco já andava mal das pernas e um dia fiz um comentário impróprio – disse ao motorista que não conhecia nenhum vascaíno e, com certeza, não haveria muita gente para chorar a triste sorte que se antecipava para o time. O cara quase me bateu. Disse que a onda flamenguista é falácia e a maior, mais fiel e apaixonada torcida do Rio era a do Vasco. Talvez fosse só um desabafo, ou desejo, de torcedor, mas me lembrei disso ontem. O Globo Esporte fez um especial sobre o jogo do rebaixamento. As pessoas, homens, mulheres e crianças, choravam tanto, e de uma forma tão sentida, tão sincera, que me senti solidário, não no câncer, como diria Nelson Rodrigues, mas na dor do Vasco. O programa foi uma pequena obra-prima eisensteiniana. Vocês me conhecem. Sabe que tendo a discutir a idéia dos 6 minutos mais influentes da história do cinema – a célebre seqüência da escadaria de Odessa em ‘O Encouraçado Potemkin’, de Serguei M. Eisenstein. Até escrevi um livro – ‘Cinema, entre a Realidade e o Artifício’, no qual, sem entrar em juízo de valor, afirmo a importância das 44 posições de câmera, durante os 72 segundos de duração do assassinato de Marion Crane na ducha, em ‘Psicose’, de Alfred Hitchcock. Goste-se ou não, o audiovisual dos últimos 40 e tantos anos tem sido muito marcado pela revolução de Hitchcock (que, talvez, tenha sido ele próprio cria de Eisenstein, mas esta é outra história). Mesmo pensando assim, ontem dei o braço a torcer ao velho Serguei e ao método que ele criou. Publicam-se até hoje livros divulgando/avaliando/discutindo o legado teórico de Eisenstein. Mas eu não vejo uma discussão como a que poderia acompanhar o Globo Esporte de ontem. ‘Potemkin’ foi uma obra de encomenda que Eisenstein aceitou fazer, para a glória da Revolução Russa. Sua importância estética se tornou tão relevante que ficou feio, como se fosse ‘menor’, considerar Eisenstein um propagandista da revolução. Conscientemente, ou não, quem editou o especial da Globo assimilou as lições de Eisenstein. A escadaria de Odessa virou um modelo, através dos tempos, sobre como filmar cenas de multidão e como individualizar – ou tipificar – dentro dela, o que interessa para o efeito emocional que se pretende, ou pretende o montador, criar. Há, naqueles degraus, uma permanente tensão entre o indivíduo e a coletividade, entre o homem e a representação do poder. O que interessa é o homem-massa, mas para que possamos nos emocionar Eiseinstein individualiza o drama coletivo. Nem me passa pela cabeça sugerir que o original não é muito melhor, mais rico e complexo, mas o essencial estava na captação do clima daquele jogo decisivo para o Vasco. Tudo ali – a montagem de atrações, a montagem rítmica, alguma coisa da tonal. Parabéns. E, à torcida do Vasco, só resta esperar que dê a volta por cima. O rebaixamento, para um clube tão grande, não há de ser para sempre.