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Luiz Carlos Merten

12 Junho 2011 | 11h44

Assisti apenas a dois capítulos de ‘Mildred Pierce’, a versão que Todd Haynes fez do romance de James M., Cain, com  Kate Winslet no papel da protagonista. Depois, viajei para Los Angeles e Cannes e terminei perdendo os demais capítulos da minissérie, que, nos EUA, foi recebida como um acontecimento comparável a ‘Twin Peaks’, de David Lynch, na história da TV. Não duvido. Haynes é um dos mais exigentes autores da atualidade, e não apenas no cinema norte-americano e eu até hoje tento entender a decisão da HBO Brasil, que escondeu o filme quanto pôde da imprensa, a ponto de a editora do ‘Telejornal’ , Cristina Padiglioni, às vésperas da estreia, ter recedbido o mínimo de informação, e assim mesmo com muita insistência. Não posso comparar a releitura de Haynes com az versão de Michael Curtiz, dos anos 1940, que deu o Oscar para Jozan Crawford e é colnsiderada a quintessência do papel talhado para a estrela. Ela havia surgido esplendorosa no começo dos anos 1930 – Pauline Kael dizia que sua sensualidade em ‘Grande Hotel’ não permitia prever a zumbi em que se transformaria mais tarde -, mas a carreira estava em baixa quando Mildred Pìerce iniciou nova etapa para ela. O filme é noir. Assisti ontem à noite, em DVD, lançamento da Versátil. ‘Mildred Pierce’, Alma em Suplício no Brasil, é um dos filmes preferidos de Pedro Almodóvar, tendo sido uma de suas referências em ‘Volver’. E pensar que Curtixz, um dos pílares da Warner, fazia de dois s três filmes por ano, todos os anos, no estúdio. ‘Mildred Pìerce’ pode não ser muito fiel ao romance – Haynes, pelo que sei, é  mais -, mas subverte duas vertentes do cinemão.  Uma delas é o noir, já que a mãe dedicada substitui o detetive particular enganado pela mulher fatal e esta é a própria filha de Mildred/Joan, Veda, interpretada por Ann Blyth, uma peste com rosto de anjo. A outra é a do melodrama estilo ‘Stella Dallas’, já que Joan termina por se dar conta de que aquela filha não tem perdão. Tudo isso é muito interessante, e eu gostei de ver ‘Mildred Pierce’, com aquele poder de síntese e aquela carga dramática realçada pelo estilo expressionista de Curtiz – nascido na Hungria, como Mihaly Kertesz. Luz e sombra, claro/escuro e uma estilização muito refinada do décor. Tudo isso é bacana, mas sewi de gente que nega o cult de Curtiz justamente pela natureza da personagem de Joan Crawford, que só atrai homens fracos, canal.has ou aproveitadores. É como se ela própria transigisse e não tivesse uma ética e a ética é o que sustenta os ‘private eyes’ de Bogart e Dick Powell naqueles filmes noir todos. Fica o tema para discussão, mas também como recomendação para ‘Mildred Pierce’. A fotografia de Eernest Haller e a música de Max Steiner evocam uma era de ouro do preto e branco em Hollywood. O filme poderia ter o dobro e a gente não ia desgrudar o olho da tela. Eu, com certeza, não.