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Luiz Carlos Merten

12 Setembro 2007 | 12h27

Detesto fazer o que estou iniciando agora – posso errar, mas é de boa fé, trocando nomes e datas. Não gosto de escrever sobre algo que não conheço a fundo, mas é a segunda vez que O Profetizador – imagino que a primeira tenha sido ele, também – cita o livro de Víctor Farías que liga Allende ao nazismo. Nunca li o livro em questão, mas sei que o Farías, chileno que leciona na Universidade Livre de Berlim, é autor de Heidegger e o Nazismo– Moral e Política, em que alinha o filósofo com o pensamento nazista, coisa que outros filosófofos, como Benedito Nunes – um dos vencedores do Prêmio Muilticultural Estadão Cultura –, contestam, achando que não se pode comprometer impunemente o autor de Ser e Tempo com a ideologia de Hitler. Resenhando Chile con Memoria, sobre o asilo de líderes nazistas no país, Libération, que é um jornal de esquerda – vocês podem consultar na internet –, diz que Farías não é um filósofo mas um alegre terrorista cuja arma é o passado. O jornal reforça a crítica que o meio acadêmico faz a Farías – ele é um bom pesquisador, reúne uma documentação expressiva, mas redige a toque-de-caixa, não ordenando muito bem as idéias e investindo no sensacionalismo. Já ouvi falar desse Allende pró-nazista e homofóbico, mas em geral esse tipo de reflexão vem do pensamento de direita. Digamos que à esquerda não interessaria macular o mito e a direita, cinicamente, investe na desmistificação, mesmo que, no fundo, um Allende com esse perfil talvez lhe fosse mais simpático. (Não quero ser cínico, também.) Mas a verdade é que Allende foi um personagem extraordinário na sua complexidade. Defendia o socialismo democrático e, efetivamente, chegou ao poder pelas urnas, é verdade que com um terço dos votos, o que não lhe dava maioria para governar. Contra tudo e todos – Fidel o incentivava à luta armada –, Allende se manteve nos limites do governo constitucional e, no fundo, talvez fosse tão mal-informado que transformou em ministro do Exército o cara (Pinochet) que precisou de apenas 19 dias no cargo para preparar sua deposição. O próprio apoio de Fidel – a carta que ele escreveu a Allende oferecendo a ajuda cubana, que Allende não aceitou – a tal carta virou objeto de escândalo, como parte do plano cubano/soviético para dominar a América Latina, mas pelo visto todo mundo acha muito natural que a CIA tenha investido na desestabilização do Chile, matando o General Schneider, incentivando o atentado contra Letelier e também dando apoio logístico e até financeiro aos sindicatos que se opunham ao presidente. O próprio Nixon, citado pelo seu embaixador em Santiago, jurou matar aquele ‘fdp’ (Allende, claro). O tal caos em que o Chile se transformou foi cuidadosamente planejado e incentivado com apoio externo e Patricio Guzmán, no documentário A Batalha do Chile, mostra não apenas a pressão contra o governo, mas também a serenidade do Allende final, a sua grandeza como um herói derrotado digno de John Ford. Allende tinha pouco apoio, mas tinha gente disposta a combater com ele. Poderia ensangüentar o Chile antes de ser derrotado. Não o fez. Tudo bem – o cara era de esquerda e, portanto, ‘comprometido’ –, mas o relato mais emocionante sobre o Chile após o 11 de Setembro, o perfil mais tocante de Allende, tudo isso se encontra no livro de memórias de Pablo Neruda, Confesso que Vivi. Aquele Allende não é nazista nem homófobo. Ah, sim. Pesquisando sobre Neruda (e Allende), Víctor Farías descobriu o que foi publicado como Diário de Temuco, um livro com 170 poemas inéditos, que talvez se tivessem perdido para sempre, não fosse a sua atividade de pesquisador.