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Algo que vocês precisam saber

Luiz Carlos Merten

02 Fevereiro 2010 | 22h53

OURO PRETO – Pela procedência, vocês já viram onde estou. Desde ontem. Cheguei no fim da tarde, depois de deixar Tiradentes de manhã e passar por Congonhas do Campo, onde visitei, mais uma vez, o santuário de Bom Jesus de Matosinhos. A igreja estava fechada, as capelas continuam em reforma, como no ano passado, quando estive no local com a Lúcia, minha filha. Mas pelo menos duas já estão prontas e se pode conferir a genialidade do trabalho de Aleijadinho. Não sei dizer dizer exatamente quando – o ano -, mas já estive ali, e me hospedei no Hotel Cova de Daniel em companhia de minha ex, Doris Bittencourt. O ano devia ser 1973 ou 74, porque eu recém havia visto ‘Irmão Sol, Irmã Lua’, de Zeffirelli, sobre São Francisco de Assis, e me encantou, como no filme, assistir a uma missa, de manhã cedo, em que cachorros e aves, até um galo – me lembro -, entravam na igreja, e ninguém ficava a expulsá-los (o irmão cachorro, o irmão galo). Ontem, me senti como parte de um enredo de Dan Brown, com aquele guia que tecia histórias de conspiração, sobre como o Aleijadinho escolheu os profetas, e alguns nem eram profetas de verdade, para que as iniciais dos nomes formassem o dele. Além das referências à maçonaria, presentes na arte sacra mineira, existem elementos que ligam os profetas de Congonhas aos inconfidentes. Tudo aquilo me excita a imaginação. Hoje, fiquei sabendo do Oscar via um telefonema de Gabriel Villela. Então é certo – ‘Avatar’ e ‘Guerra ao Terror’ estão entre os indicados para melhor filme; ‘Up, Altas Aventuras’, também. James Cameron e sua ex, Kathryn Bigelow concorrem ao prêmio de direção; Casey Mulligan, de ‘An Education’, que entrevistei na sexta, ao de melhor atriz; e ‘Um Profeta’, de Jacques Audiard, representando a França, briga pelo prêmio de melhor filme estrangeiro (com um da Argentina e outro da Alemanha, justamente ‘A Fita Branca’, de Michael Haneke). Vamos ter oportunidade de falar sobre todos esses filmes, mas agora quero dizer que assisti, à noite, no único cinema de Ouro Preto, a ‘Quelque Chose às Te Dire’, longa de Cécile Telerman que, fui pesquisar na internet, deve ter estreado no País em 2 de outubro do ano passado. Onde estava que não o vi? No Festival do Rio? Achei muito legal o filme, que no Brasil se chama ‘Algo Que Você Precisa Saber’, sobre segredos de família. ‘Quelque Chose’ tem duas atrizes que amo, Mathilde Seigner e Charlotte Rampling e a cena em que Charlotte diz para a filha que sente muito, mas não consegue expressar o amor que sente por ela, é de uma beleza que me tocou profundamente. Valente (Eduardo?) me pede que comente os demais filmes que integraram a Mostra Aurora, em Tiradentes, e não apenas o vencedor, ‘Caminho para Ythaca’, como fiz aqui. Pretendo fazê-lo, Valente, mas não agora. Também não tive tempo, ainda, de comentar vários filmes a que assisti em Paris – ‘A Oitava Esposa do Barba Azul’ e ‘Angel’, de Ernst Lubitsch; um de George Stevens que me escandalizou pelo teor racista da representação do negro, ‘Que Papai não Saiba’, com Cary Grant e Ginger Rogers, e eu desconfio que ele fez depois ‘Assim Caminha a Humanidade’ e ‘O Diário de Anne Frank’ para se purgar; e ‘Paixões Que Alucinam’, Shock Corridor, de Samuel Fuller, sobre o qual havia falado, recentemente, a propósito da preferência que os ‘autores’ da nouvelle vague tinham por Fuller. Foi uma experiência e tanto rever o cinema demencial e essencialmente físico de Fuller. Ando em êxtase com tantos filmes bons que tenho visto. Mesmo aqueles de que não gostei muito em Tiradentes e Paris levantaram questões interessantes sobre o próprio cinema e elas permanecem comigo. Cada vez me convenço mais que não são só os filmes de que a gente gosta que nos acompanham. Não resisto a provocar o Silva – quer dizer que o enfadonho ‘Nine’ ficou entre os dez indicados para o prêmio da academia? Como era mesmo? Enfadonho e que não funciona? Achei excessivo que o musical de Rob Marshall tenha candidatado Penelope Cruz para o Oscar de coadjuvante. Quem deveria ter sido indicada era a Marion Cotillard, mas, enfim, vejam que não é todo mundo que acha ‘Nine’ enfadonho e eu continuo insistindo naquele número da Saraghina como coisa de louco. Enfim, é tarde, tive um dia cheio – andei até em minas, falo em minas de verdade, o que me reativou a lembrança de filmes que amo, especialmente ‘Ver-Te-Ei no Inferno’, The Molly Maguires, de Martin Ritt. Mas é misturar demais as coisas. Muitos de vocês já devem ter desistido desse post tão caótico (e longo, e sem parágrafos. É para ser um desafio mesmo.) Quis só dar notícias. Amanhã eu volto a postar. Em BH.