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Alexandra, que poderia ter usado aquele biquíni

Luiz Carlos Merten

05 Junho 2014 | 09h32

Depois de viajar nas memórias de Dino Risi, entrei de chofre – acho que nunca havia escrito a palavra – no relato autobiográfico de Alexandra Stewart, Mon Bel Age. Tem um lado conto de fadas. Jovem canadense, com talhe de amazona, vai para Paris, no fim dos anos 1950, e integra-se à revolução da nouvelle vague. Conhece os gênios – Ernest Hemingway, que a convida para sua casa em Cuba, Orson Welles. O toureiro Luis Dominguin a apresenta a Picasso, e através de Picasso ela chega a Jean Cocteau. Hoje em dia, Alexandra pega o metrô e desembarca em Saint Germain. Não reconhece mais o cenário de sua juventude. O Café Flora não abriga mais os intelectuais. Foi tomado de assalto pelos turistas. Ela reflete sobre o privilégio de ter chegado à França naquele momento. Hoje, uma vida como a sua não seria mais possível. E se ela tivesse ficado no Canadá, como teria sido? Pierre Kast foi seu Pigmalião e ela filmou sucessivamente com Roger Vadim, Jacques Doniol Valcroze, Edouard Molinaro, Leopoldo Torre-Nilsson. Jean-Luc Godard, François Truffaut, Claude Chabrol, Chris Marker. Foi à selva com Tarzan – O Magnífico, de Robert Day – e filmou com Otto Preminger, Arthur Penn e John Huston. Como teria sido sua vida, se não estivesse no lugar certo, Paris, no ano exato, 1958? O que teria sido de sua vida se, transformada em ícone da nascente nouvelle-vague, não tivesse dito não a uma proposta que lhe foi feita por telefone, tão logo chegou do set de Preminger em Israel, onde fez Exodus? Ofereceram-lhe o papel de protagonista feminina de um filme de espionagem. Ela só teria de sair do mar de biquíni e com uma adaga na cintura. Alexandra Stewart, metida com os intelectuais da nouvelle vague, achou que não era para ela. Recomendou sua amiga Ursula Andress, que virou o mito sexual que todo mundo sabe. O Satânico Dr. No. James Bond, Sean Connery. Não foi a única vez que disse não. Ela já conhecia Louis Malle de vista. Um dia, cruzaram-se na Praça Saint André des Arts e ele a convidou para um café. Achou-o charmoso. Ele a convidou para fazer Zazie no Metrô, ela seguiu o conselho de seu agente e foi filmar na Itália. Malle chamou-a para dublar a atriz italiana que terminou contratando. Fizeram juntos 30 Anos Esta Noite, casaram-se, ela lhe deu uma filha e Malle escreveu Black Moon para Alexandra. Até hoje habita na casa que Malle comprou para ela em Fontenay-sous-Bois, passando o Bois de Bologne. A filha de ambos, Justine, virou cineasta e já lhe deu dois netos. Alexandra também narra suas decepções. Woody Allen havia escrito O Que É Que Há, Gatinha? para ela, mas o produtor preferiu contratar Romy Schneider, para garantir o mercado alemão. Roman Polanski chamou-a para o principal papel  de Cul-de-Sac, Armadilha do Destino, e ela chegou a iniciar as filmagens. Um dia, cometeu a indiscrição de dizer a Polanski que estava se inspirando na irmã de Catherine Deneuve, com quem o diretor fizera Repulsa ao Sexo. Polanski despediu-a para contratar Françoise Dorléac. Histórias, histórias. Pierre Kast era um erudito que vivia no passado e gostava de lhe falar tudo o que era preciso saber sobre Caravaggio, sua imensa paixão. Chris Marker vivia ancorado no presente, antecipando-se às tecnologias para saudar o futuro. Que venha logo! Alexandra Stewart viveu, e ainda vive, essa vida especial. Continua amando a vida e os cavalos mais que o cinema, mesmo reconhecendo que foi graças aos filmes que conheceu o mundo, e os grandes artistas. Leio seu livro como quem reencontra amigos e sabe mais um pouco sobre Louis, François, Pablo e os outros.