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Luiz Carlos Merten

15 Outubro 2011 | 11h02

RIO – E Leon Cakoff não foi o único ligado a cinema morrer ontem. Abri meus e-mails, condição para validar comentários no blog, e encontrei a mensagem de Ely Azeredo, que repasso a vocês. “Soube que faleceu hoje (ontem) o Alberto Salvá. Operário de muitos ofícios no cinema (cenário em que tos se dizem Autores) deu ao seu filme mais interessante o título de ‘Um Homem Sem Importância’. Que tinha elementos autobiográficos.” Azeredo foi parcimonioso no elogio. Só interessante? No meu imaginário, ‘Um Homem sem Importância’ e bem mais que isso e, embora nunca o tenha revisto – sumiu na noite do tempo,  como ‘Marília e Marina’, um filme mítico para mim -, guardo excelente lembrança de Oduvaldo Vianna Filho na pele do protagonista, Flávio, que está desempregado e vive o seu dia de enlouquecer, entregando currículos, buscando oportunidade e relacionando-se com gente tão ou mais desesperada que eler. Glauce Rocha, Rafael de Carvalho, como é mesmo o nome daquele japonês?, Kazuo Kaz, ou Kon. Não vou dizer que sempre me lembrava de ‘Um Homem sem Importância’, mas o filme me veio quando assisti a ‘O Quarto’, de Rubem Biáfora, com Sérgio Hingst, na recente homenagem da Sala Cinemateca ao ator. Salvá tinha um lado Truffaut, mas ‘Um Homem sem Importância’ é muito mais ‘social’, com aquele canção (letra de Denoy de Oliveira) que fala ‘numa história como muitas outras cenas’ e o desabafo de Flávio, que, num encontro com garotos da Zona Sul, com quem compartilha um baseado, diz que não teve infância. Lembro-me de que há uma cenas dele com Glauce Rocha. Ela faz uma secretrária que se interessa por Flávio. Leva-o para casa, apresenta à família. Lavam a louça. Trocam um beijo (é isso?). Nada de sexo, ao contrário de ‘Um Dia de Enlouquecer’, de Mauro Bolognini, roteiro de Pier Paolo Pasolini, em que Jean Sorel, belo como um Deus, faz sexo com Lea Massari e aceita o dinheiro que ela lhe oferece. Agora, vou delirar. Adoro o título de um livro de crônicas de Aldir Blanc, ‘Cama na Rua’, em que a mulher, bem comida, pede ao marido que ponha a cama na rua para que todos vejam como ela é feliz. Vianninha, ator, roteirista, dramaturgo, era homem de múltiplos talentos. Imagino que ‘Um Homem sem Importância’ lhe deva mais do que simplesmente a presença física. Adoro uma história do cara, que nem sei se é verdadeira. Uma atriz, amiga (ou amante), teria gritado de uma janela do apartamento em Copacabana. ‘Leva a cama pra rua, Vianninha! Ensina esse povo a trepar…’  Tudo isso me veio a propósito da morte de Alberto Salvá. Ando emotivo, nos últimos dias. Não vou me desculpar por isso. O que me salva é a emoção.