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Luiz Carlos Merten

26 Março 2008 | 10h40

Tenho trocado figurinhas sobre lançamentos de DVD com meu colega do ‘Caderno 2′, Antônio Gonçalves Filho. Dei-lhe a dica da Flavius DVD, na Galeria da Fumaça, no Centro, e o Toninho (como o chamamos) retribuiu me falando das maravilhas que comprou a troco de banana na Fnac da Av. Paulista.’Quem Tem Medo de Virginia Woolf?’, de Mike Nichols, adaptado da peça de Edward Albee, com o casal Burton/Taylor (ela ganhou o Oscar pelo papel); ‘West Selvagem’, do Altman, com Paul Newman na pele do lendário (e aqui desmistificado) Búfalo Bill; ‘Não Amarás’, do Kieslowski; e ‘O Ano em Que Vivemos em Perigo’, do Peter Weir, com Mel Gibson e Sigourney Weaver. Confesso que, de tudo o que AGF comprou, o que mais me interessou foi ‘Alma Torturada’ (This Gun for Hire), de Frank Tuttle, com Alan Ladd e Veronica Lake. Como, você não sabe o que é ‘Alma Torturada’? Há um culto a este noir que o diretor Tuttle e seus roteiristas, W.R. Burnett e Albert Maltz, adaptaram de Graham Greene (‘A Gun for Sale’), com Alan Ladd no papel do assassino com cara de anjo que tenta se vingar do homem que transformou sua vida num inferno, mas ele topa com Veronica Lake, com aquela cabeleira loira que, displicentemente, lhe cobria um olho e… Se é noir, tem de ter mulher fatal, e mais não conto. Toninho me contou e recontou sobre a abertura do filme, que já viu não sei quantas vezes. Alan Ladd, no quarto, o rosto filtrado pelas résteas de luz da persiana, limpa o revólver e o coloca na pasta, como um profissional a caminho do trabalho, e o dele é matar pessoas. Havia, nos anos 40, uma copiosa e banal produção hollywoodiana que diretores como Tuttle (e roteiristas como Burnett e Maltz) conseguiam subverter, com certeza. ‘Alma Torturada’! Não sabia nem que o filme existia em DVD. Agora sei – e vocês também – até onde comprar. E o Alan Ladd, gente? Ele foi o grande Gatsby de Elliott Nugent em 1949 e o Shane de ‘Os Brutos Também Amam’, de George Stevens, em 1953. Não sei de vocês, mas Alan Ladd faz parte das minhas experiências inesquecíveis no cinema. A cena final do western clássico de Stevens, quando ele parte rumo às montanhas e o Brandon De Wilde grita ‘Shane! Shane!’ me dói até hoje. O pistoleiro não se volta – cumprida sua missão, ele parte para sempre. A cena marcou tanta gente que Paulo Perdigão, grande crítico que virou depois o programador de cinema da Globo, inspirado no exemplo de Woody Allen em ‘A Rosa Púrpura do Cairo’, recorreu à ferramenta do vídeo para criar um final feliz para ‘Shane’. Sempre quis ver o filme do Stevens revisto por Perdigão, que o amava (como eu). O livrinho, pequeno no tamanho (mas só no tamanho) que PP dedicou a ‘Shane’ (e foi publicado pela L&PM), é uma preciosidade. Como o filme do Stevens. Como ‘This Gun for Hire’.