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Luiz Carlos Merten

09 Fevereiro 2008 | 14h34

BERLIM – Preciso me benzer. Ontem de manhah, depois de assistir aos filmes de Wang Xiaoshuai e Paul Thomas Anderson, tive de correr contra o tempo para mandar a matéria que saiu na edicao de hoje do ´Caderno 2´. Estava me sentindo mal, achei que era uma gripe e, por garantia, resolvi ir na emergencia de um hospital. Fiquei quatro horas em observacao, fazendo todo tipo de exame – urina, sangue, sonografia – e no final rive de entrar no antibiotico. Era o que me faltava! Para completar, estava me sentindo fraco e fui ver um filme do Damien Harris, ´Gardens of the Night´. Tomei um choque, porque a historia, barra pedadissima, eh sobre abuso infantil, drogas, prostituicao de garotos e garotas. De volta para o hotel, desmaiei. Esqueceram-se de me chamar hoje pela manhah e eu fui correndo, sem tomar cafe, para a sessao do filme mexicano de Fernando Eimbcke. Gostei muito e ateh fiquei pensando que foi melhor nao ter redigido nada ontem. Se tivesse acrescentado um post sobre ´There Will Be Blood´´, ele teria saido muito entusiasmado e, em festivais, a palavra de ordem eh sempre relativizar os juizos criticos. A gente estah sempre comparando – eh inevitavel -, mas eu quero dizer que, mesmo tendo gostado do filme de Paul Thomas Anderson, e tambem do do Wang, que se chama n Love We Trust´ e, como ´Bicicletas de Pequim´, eh sobre as transformacoes que ocorrem na China, o mexicano me apanhou de uma forma que acho ateh dificil de explicar. Eímbcke eh o diretor de ´Temporada de Patos´. Fez um filme sobre nada que eh tudo. Na primeira cena, um carro passa pelo espaco da tela. A imagem fica escura, o filme continua no som. Um barulho indica que houve um acidente. O carro chocou-se com um poste. Sai de dentro dele um garoto – Diego Catano, ator de ´Temporada de Patos^´ Ele caminha, de um canto a outro da tela, sempre tendo seus movimentos alternados pela imagem escura. Nesta primeira parte, o cara busca ajuda em diversas oficinas mecanicas. Nada acontece, mas esta deambulacao eh muito interessante porque confronta o heroi com varias figuras – um velho que tem um cao, uma garota que tem um filho e um rapaz que idolatra Bruce Lee. O protagonista vai dizendo nao a todos eles e depois volta para fazer os favores que lhe pediram (e ele havia descartado). Dito assim, fica meio sem sentido e o proprio titulo, ´Lake Tahoe´, eh misterioso, porque nao hah Lake Tahoe no filme. Fernando Eimbcke fez um filme sobre a elaboracao da perda – o diretor, como seu personagem, havia perdido o pai ao se lancar ao projeto – que me me pareceu radicalmente novo e autoral. Serah indiscricao o que vou escrever agora? Sentei-me com Silvana Arantes, minha colega (concorrente?) da Folha e ela nao deixou por menos. Fernando Eimbcke eh muito jovem. E bonitao. Ainda nao sabemos da premiacao – Costa-Gavras pode achar legal o fato de a garota ter batizado seu filho como Fidel, em homenagem ao proprio. Afinal, a filha de Costa, Julie, fez o adoravel ´´A Culpa E do Fidel´. De volta a Silvana, ela me disse que o Fernando Eimbcke nao vai ter concorrente ao titulo de diretor mais bonito deste festival. Um cara tao jovem… E fez um filme com esta profundidade!