Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Ainda ‘Ythaca’

Cultura

Luiz Carlos Merten

01 Fevereiro 2010 | 10h20

TIRADENTES – Não passei bem a noite – tive problemas de intestinos, mas vou poupá-los dos detalhes – e agora de manhã já redigi os filmes na TV de terça. Ainda não consegui, por problemas de espaço, emplacar uma matéria sobre o encerramento da 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes, que terminou sábado à noite. Ontem, postei rapidamente, antes de tentar dormir, algumas impressões gerais. Mas não assinalei o que talvez mais me tenha impressionado aqui em Tiradentes. Muitos, se não todos os filmes da Mostra Aurora, mostraram personagens solitários ou ilhados. Três mulheres que quase não se comunicam numa casa (‘Mulher à Tarde’), os moradores de coberturas (‘Um Lugar ao Sol’), gente num cruzeiro (‘Pacific’), habitantes numa terra de ninguém, a fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru (‘Terras’), os próprios garotos que caem na estrada em ‘Ythaca’ e que não interagem com o mundo que segue estagnado, enquanto eles vão passando. São filmes pós-modernos (a maioria) e pós-utópicos (todos) e o que me ganhou em ‘Ythaca’, a par da reinvenção formal (e como método de produção) do Cinema Marginal, foi o tema da amizade entre aqueles garotos. Eles choram a morte de um companheiro, mas não se desagregam. Permanecem solidários, talvez sem um projeto de verdade, mas unidos no companheirismo e os quatro atores, produtores, diretores, roteiristas e montadores, entre um porre e outro, um choro e outro, permanecem unidos como os dedos de uma mão, à qual falta agora um integrante (um dedo?). ‘Ythaca’ irritou a algumas pessoas, a amigos inclusive – ‘um filme sem assunto’, tive de ouvir muito -, mas nunca vi filme sem assunto que tivesse tanta coisa a dizer. Os quatro (anti)heróis passam pelo filme barbudos. Num determinado momento, ocorre uma ruptura (uma transformação?) e eles avançam mudados para a câmera. Na ideia original, estariam nus, mas os irmãos Pretti e seus cúmplices, os primos Parente, acharam que seria excessivo e propõem outra coisa. Aquele pequeno exército de Brancaleone me tocou muito. A reinvenção do mundo e do cinema, a reinvenção do mundo pelo cinema. Chorei que foi uma beleza.
Estou abrindo um parágrafo. Ia acrescentar outro post, porque o assunto vai mudar muito, mas o carro me apanha daqui a pouco para seguir para Ouro Preto, com passagem por Congonhas do Campo. Tenho pressa. O recado é para o Silva, que tira sarro. O que seria de filmes enfadonhos e que não funcionam, como ‘Nine’, se não fosse eu. Acreditem que, com todas as diferenças, ouvi exatamente isso, a parte do enfadonho e do não funciona, sobre o filme do coletivo de Fortaleza? Ainda bem que existimos, meus colegas de júri e eu. Espero que tenhamos ficado também amigos, solidários. Adorei-os. E, Silva, sem querer polemizar. Tanta gente falou mal de ‘Nine’, acho que todo mundo. Fica com eles, que fornecem o respaldo de uma confortável maioria. Eu, quando todo o mundo é contra, desconfio. Era, aliás, o tema do Simenon que estava lendo, nos raros momentos de folga. ‘O Amigo de Infância de Maigret’. Todas as evidências apontam que o cara teria cometido um assassinato. Maigret nem gostava dele na escola. Acha que o cara ficou ainda mais abjeto do que já era. Mas ele rejeita, acha excessivo, o acúmulo de pistas. De minha parte, tenho é pena de quem não capta, no musical, a espessura dramática das cenas de Daniel Day-Lewis e da sublime Marion Cotillard – ele, confesso, me surpreendeu mais do que no filme do petróleo, que lhe deu o Oscar; lá, Day-Lewis exibiu o que eu esperava de um grande ator fazendo seu número -, isso para não falar de Stacy Ferguson como Saraghina. Ninguém me tira da cabeça que o próprio Fellini teria amado aquela coreografia na falsa praia.