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Luiz Carlos Merten

22 Junho 2009 | 19h02

Regressei ontem à noite do Rio e já entrei numa roda viva aqui em São Paulo, com direito a festa de aniversário de Renata Alvim, a bela – e põe bela nisso – produtora execuitiva de ‘Vestido de Noiva’. Hoje pela manhã, além das matérias de praxe – filmes na TV, a abertura da 2ª Mostra do Audiovisual Israelense, com filmes de Amos Gitai e Amos Kollek -, somei dentista e a cabine de ‘Jean Charles’, que havia perdido na semana passada. Confesso que fiquei meio desconcertado com o filme de Henrique Goldman, mesmo reconhecendo qualidades na sua ficção nas bordas do documentário e vice-versa. Validando os comentários, encontrei o do Mário Kawai, me cobrando que, no post sobre Nicholas Ray, citei um monte de filmes, mas não seu favorito, o noir ‘No Silêncio da Noite’ (In a Lonely Place), com Humphrey Bogart e Gloria Grahame. Mauro Brider também considera justamente este filme o melhor de Ray. Engraçado é que, ao enumerar meia-dúzia de filmes, cheguei a pensar em ‘No Silêncio da Noite’ – e também em ‘O Crime não Compensa’, o primeiro do autor com Boggie -, mas deixei de lado porque também não estava citando um Ray do meu coração, ‘Sangue sobre a Neve’ (The Savage Innocents), com Anthony Quinn como esquimó, uma ficção – semidocumentária – na vertente de ‘Nanuk’, de Robert Flaherty. Acho que não citei nem o ‘Jornada Tétrica’ nem ‘A Bela do Bas-Fond’, que são filmes que me agradam porque difíceis de classificar. O último mistura filme de gângsteres com musical. Mas é claro – Ray é daqueles diretores inesgotáveis, sobre quem poderíamosa falar indefinidamente. Tuio Becker me contava a história de Ray, casado com Gloria Grahame e ela tendo um affair com o filho dele. A história seria perfeita para um filme do diretor, para quem a família de sangue é muito mais fonte de tormento do que de união e, por isso mesmo, Jim Stark (James Dean) forma a sua família ideal com Plato (Sal Mineo) e Natalie Wood – como é mesmo que se chamava a personagem dela? Tuio sempre me levantou a lebre da bissexualidade ou (homo)sexualidade reprimida de Ray, o que talvez faça sentido, porque justamente em ‘Juventude Transviada’ há uma atração homo-erótica muito forte entre Jim e Plato. E eu não falei para vocês. Revi outro dia a abertura de ’55 Dias de Pequim’. Ray definia o cinema como a melodia do olhar e eu acho do outro mundo o fluxo dos olhares que ‘constroem’ a montagem daquela cena inicial, até a entrada de Charlton Heston. A personagem da imperatriz, o príncipe Tuan (Robert Helpmann)… Posso até discutir o enfoque ‘colonial’ e a solução do desfecho, como se toda aquela guerra não tivesse outro sentido senão humanizar o soldado Heston, que, como John Wayne na solução final de ‘Rastros de Ódio’, também abre os braços para neles abrigar a menina. Mas a elaboração dos personagens chineses, o balé de Robert Helpmann, que era mesmo bailarino – ‘Sapatinhos Vermelhos’ -, aquilo tudo é muito refinado.