Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Ainda os protestos na Paulista

Cultura

Luiz Carlos Merten

10 Março 2007 | 20h51

Passei um dia meia-bomba. Um pouco desanimado, o que não é muito o meu feitio, acho que por causa do calor. Fui ler agora os comentários e gostei da polêmica sobre as manifestações na Paulista. Entendo todas as reações, mas não gosto de especular. Uns 10% estavam na Paulista com seriedade, os outros para apartecer, porque era Bush, porque isso e aquilo. De onde que as pessoas tiram esse empirismo? E não é sempre assim? Uma parte mais consciente arrasta. A outra vai atrás, quando vai. É fácil ficar criticando a alienação da juventude, o consumismo, o escambau, mas se a juventude é assim, não é porque quer. O mundo mudou e, antes de criticar a juventude, a gente devia fazer também a autocrítica. A geração que queria mudar o mundo foi que não atingiu seu objetivo. Nos anos 60, sob a ditadura, havia repressão, muita gente morreu, foi exilada. Houve uma diáspora brasileira e, mais que brasileira, latina. Hoje o mundo mudou, a América Latina está democratizada – tem o Chávez mas é outra história e um personagem fácil de demonizar; Chávez, dizem seus detratores, é um anacronismo no mundo atual, como Fidel, e isso é que incomoda. Por mais que sejam criticados, que se formem alianças contra eles, os caras estão firmes e fortes – Fidel está balançando, agora que está doente -, mas resistem e já que resistem é porque têm base de apoio. Isso é o que irrita tanta gente. O dia em que Fidel, ou Chávez, caírem, o mundo não vai ficar mais democrático. Vai ficar mais homogeneizado, o que é uma coisa muito diferente. Acho que já escrevi isso, mas não custa repetir. Acho que o grande gênio anônimo do século 20 foi o cara que criou um slogan para o jean, que virou uniforme da juventude, nos anos 60. Pode até ser que seja fácil descobrir quem foi, mas eu prefiro, fica mais romântico, deixá-lo anônimo. Liberdade é uma calça azul e desbotada. Foi profético! Qual é a grande liberdade que se tem hoje no mundo? É a de consumir, e é uma liberdade dirigida, monitorada pela propaganda. Vivemos a ditadura do mercado e dessa ninguém reclama. Há 40 anos, os militares brasileiros censuravam jornais e emissoras de rádio e TV, intervinham nas universidades, cassavam os direitos de cidadãos, torturavam, tudo para impedir que as informações circulassem. Hoje em dia, com internet e tudo, nunca houve tanta informação no mundo, e o resultado é desinteresse, alienação. O excesso de liberdade, transformado em excesso de informação, gerou a indiferença. Acho positivo o protesto na Paulista, mesmo se só 10% estivessem lá conscientemente. Deplorei a violência, os feridos. Foi assim no encontro do G-8 em Turim, quando aquele estudante foi morto. Ele virou nome de rua, de praça, teve até um filme. Estava lá conscientemente ou foi – simplesmente? Um outro mundo será possível. Com crítica, com conscientização. A participação tem de ser construída. Não vou atirar pedra nos jovens, nem nos que são alienados. Prefiro me olhar no espelho, fazer deste blog um instrumento de discussão. E reflexão.

Encontrou algum erro? Entre em contato