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Cultura » Ainda os grandes fotógrafos

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Luiz Carlos Merten

22 Agosto 2007 | 14h07

Ontem tive um dia bastante agitado. Terminei por perder a cabine de O Ultimato Bourne, e vocês sabem como eu gosto da série com Matt Damon. Vou correndo ver na sexta para poder postar logo. Mas, enfim, tive de assistir a Cidade dos Homens e entrevistar o diretor e o elenco, o que me tomou boa parte da tarde (e da noite). Com isso, só voltei agora ao blog. Queria postar alguma coisa sobre Cidade dos Homens. Gostei! Só que fui olhar os comentários e encontrei todos aqueles sobre o post dos fotógrafos. Vocês (alguns, pelo menos) dizem que aprendem comigo. Eu retribuo. Aprendo com vocês. Nunca tinha ouvido falar naquela seleção do Scorsese sobre as melhores fotografias de todos os tempos. Como toda lista, é discutível, mas é legal porque estimula a gente a pensar. Por exemplo, o Scorsese não lista Rotunno, com a fotografia de Cronaca Familiare (Dois Destinos). Eu próprio não me lembro quem fotografou As Duas Faces da Felicidade (Le Bonheur), de Agnès Varda, mas na minha lembrança é o mais luminoso (e impressionista) dos filmes. O que mais gostei foi do resgate de fotógrafos meio esquecidos, até por mim, Conrad Hall e James Wong Howe. Esse era gênio, trabalhando em cor e preto-e-branco. Alguém lembrou a cena da dança (Moonglow) em Férias de Amor (Picnic), mas eu me lembro da grua no fim daquele filme, quando a câmera sobe para acompanhar Kim Novak, que deixa a opressiva cidadezinha interiorana. O próprio Wong Howe repetiu o efeito em Esta Mulher É Proibida, uma adaptação de Tennessee Williams feita por Sydney Pollack, com roteiro de Coppola e Natalie Wood e Robert Redford no elenco. Nunca mais revi o filme, mas Antônio Gonçalves Filho, depois de ler um destaque que fiz para os filmes na TV, no Estadão, me disse que Esta Mulher É Proibida é muito melhor do que tinha descrito. De volta ao Wong Howe, o trabalho dele com Martin Ritt é excepcional. Poderia citar O Indomado, estava escrevendo O Espião Que Saiu do Frio, mas seria errado (tenho certeza de que quem fotografou o thriller com Richard Burton foi Oswald Morris). Da parceria Ritt-Wong Howe vou ficar com Ver-Te-Ei no Inferno, que o diretor fez por volta de 1970, com Sean Connery, Richard Harris e Samantha Eggar. A história trata do terrorismo de mineiros da Pennsilvânia, no fim do século 19. Poucos filmes americanos são tão avançados, tão radicais, ideologicamente. E tem aquele plano-seqüência inicial. A câmera sai de dentro da mina. Do escuro para a luz. Acompanha uma ação que a gente não entende direito, mas que fica clara minutos depois, quando a câmera, sempre seguindo os mineiros que abandonam o trabalho, flagra a explosão na mina. Todo o filme já está ali, naquela cena. É uma coisa de louco. Ritt teve um fim de carreira decepcionante, quando os bons sentimentos, ou as boas intenções, predominaram sobre seu olhar de esquerda, uma raridade na produção dos grandes estúdios de Hollywood. Acho bem chatinho aquele filme em que Jane Fonda ensina o analfabeto Robert De Niro a ler e escrever (chama-se Íris). Mas Hombre, Ver-Te-Ei no Inferno, A Grande Esperança Branca e Lágrimas de Esperança (Sounder) estão todos lá, no panteão dos grandes filmes da minha vida.

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