Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Ainda os casais

Cultura

Luiz Carlos Merten

17 Junho 2007 | 14h14

Fui ler agora os comentários e gostei dos acréscimos de vocês à lista dos casais célebres. Alguns, é verdade, me interessaram mais. A parceria de Orson Welles e Rita Hayworth rendeu um só grande filme – A Dama de Shangai. A de Claude Chabrol e Stephane Audran atravessa As Corças, A Mulher Infiel, O Açougueiro, Trágica Separação, Juste Avant la Nuit, Dez Dias Fantásticos e Amantes Inseparáveis. Desculpem-me se esqueço algum, mas O Açougueiro é cult total para mim. Com A Besta Deve Morrer, forma a dupla de meus filmes preferidos de Chabrol e, em ambos, existe a sedução chabroliana pelo personagem monstruoso. Em O Açougueiro, Stéphane, como a professora de uma pequena cidade, se apaixona por Jean Yanne e descobre que ele é o assassino compulsivo que está matando crianças. A cena final, da confissão, quando ela o mata, é um espelho do desfecho de M, o Vampiro de Dusseldorf, de Fritz Lang. Em A Besta Deve Morrer, Michel Duchassoy é o pai que caça o motorista irresponsável que matou seu filho e fugiu. Ele é, de novo, Jean Yanne. Não sei, fico sempre em dúvida. Meu primeiro impulso é sempre dizer que O Açougueiro é o maior Chabrol, mas aí me lembro da Besta e vacilo. Que filme! Aquele pai que vira, ele próprio, um monstro obcecado por vingança me toca demais. Não concordo muito com Saymon quando prefere a dupla Woody Allen/Diane Keaton à dupla que Woody formava com Mia Farrow. Pensa bem, Saymon. Sonhos Eróticos Numa Noite de Verão, Zelig, Broadway Danny Rose, A Rosa Púrpura do Cairo, Hannah e Suas Irmãs, Crimes e Pecados, Alice, Maridos e Esposas. Tenho para mim que os melhores, e mais influentes, filmes do Woody Allen foram os que ele fez com Mia. Zelig e A Rosa Púrpura produziram mais frutos que quaisquer outros filmes do diretor. Espero não chocar ninguém se eu citar agora, não um casal, mas um par gay. Luchino Visconti e Helmut Berger. Visconti ofereceu grandes papéis a Helmut em Os Deuses Malditos, Ludwig – A Paixão de Um Rei e Violência e Paixão. Foram amantes, embora exista certa controvérsia, se não foram amantes platônicos. Laurence Schiffano conta como Visconti levou o jovem Helmut numa demorada viagem pela Grécia, repassando para ele as origens greco/romanas da civilização ocidental. Na Grécia antiga, era comum os homens maduros tomarem sob sua proteção os jovens (efebos) a quem iniciavam na cultura. Visconti, de qualquer maneira, nunca perdoou Helmut porque, após a doença que o deixou paralítico, o ator foi filmar com o diretor – Joseph Losey – que Visconti considerava seu arquiinimigo. Ambos queriam filmar Em Busca do Tempo Perdido, de Proust. Um inviabilizou o projeto do outro. Losey fez seu Proust em O Mensageiro do Amor. Visconti fez o dele a partir de Thomas Mann (Morte em Veneza). Mas Proust, conta a roteirista Suso Cecchi D’Amico, virara uma obsessão para Visconti. Mais uma vez, uma coisa leva a outra – falei em Visconti e Helmut Berger, chego a Visconti e Suso. Ela foi colaboradora do grande diretor por quase 30 anos. Também o amava, me confessou numa entrevista em Veneza, no mesmo Hotel des Bains em que Visconti filmou as cenas da família de Tadzio. Foi uma relação de amor sem sexo. Mas Suso, quase 20 anos após a morte de Visconti, ainda dizia que ele era o seu Deus.