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Luiz Carlos Merten

16 Abril 2008 | 08h31

Quando começou ontem a premiação do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, pensei comigo – ‘Xiiii, vai ser distributivista…’ O primeiro bloco incluía os indicados para melhor maquiagem, figurinos e direção de arte e cada prêmio foi para um filme diferente. ‘Tropa de Elite’ ganhou oito dos 13 prêmios para os quais foi indicado e isso poderia apontar para uma vitória acachapante do filme de José Padilha. Mas, no limite, acho que foi distributivista, sim. ‘Tropa de Elite’ e ‘O Ano em que meus Pais Saíram de Férias’ concorriam em 13 categorias, cada. Houve, como bem assinalou o Zanin, meu colega Luiz Zanin Oricchio, a mesma polarização que deve ter dominado a reunião que indicou o candidato do Brasil para o Oscar, no ano passado. ‘Tropa de Elite’ ganhou um mundaréu de prêmios, digamos, ‘técnicos’ e a cereja do bolo foi a atribuição do prêmio de direção a José Padilha, num reconhecimento, óbvio, de que o filme é muito bem dirigido, fotografado, montado, além de haver se convertido no fenômeno de 2007. Mas os principais prêmios atribuídos ao ‘Ano’, melhor filme e roteiro, foram essenciais. Privilegiam o humanismo do filme de Cao Hamburger. De volta ao ‘Tropa’, acho que o prêmio de melhor ator para Wagner Moura também busca resgatar justamente o que há de mais humano no filme do Padilha, aquele dilaceramento interior do Capitão Nascimento. Independentemente de gosto pessoal, e mesmo tendo sido um pouco esquizofrênica, acho que não há muito o que reclamar da premiação, porque outros poderiam merecer, mas quem levou também merecia. Já a festa… Tudo bem que o cinema brasileiro não é Hollywood, mas a esquizofrenia se estendeu à própria festa. Muita gente de black-tie, de ténue de soirée – mesmo que alguns ternos fossem emprestados -, mas o Coutinho, por exemplo, ‘catou uma camisa pólo’ e foi bem simplesinho. Coloquei entre aspas porque foi o que me disse hoje um amigo, ao chegar no jornal. ‘Catou uma camisa pólo que nem tu’ – o tu era para mim. E eu confesso que, por mais que admire Coutinho – e ame o ‘Jogo de Cena’ – teria votado no ‘Santiago’, que já havia apontado como o melhor filme brasileiro do ano passado, seguido justamente pelo documentário do Coutinho. Meu lado viscontiano falou mais forte. Santiago, o mordomo, é um personagem trágico desgarrado de um (grande) filme de Visconti.