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Ainda o Globo de Ouro, e o que a cerimônia sinalizou

Luiz Carlos Merten

10 Janeiro 2018 | 09h05

De volta a São Paulo, e com uma agenda movimentada, para quem está em férias. O post vai ser longo, e errático, aviso. Daqui a pouco, espero (re)ver Pela Janela, para entrevistar à tarde a diretora Carol Leone e a atriz Magali Biff. Talvez vá a Porto Alegre por uns dias, antes de Tiradentes, que começa dia 19, mas amanhã quero ver o Ferdinando de Carlos Saldanha e o Churchill de Joe Wright, O Destino de Uma Nação, que valeu a Gary Oldman o Globo de Ouro de melhor ator de drama. Gostei muito de Brian Cox, que também fez o papel, e não consigo ver o Gary melhor que ele, mas enfim… Também não me conformo que Cynthia Nixon não tenha sido sequer indicada como melhor atriz de drama por sua ‘superb’ Emily Dickinson de Além das Palavras, de Terence Davies. Thiérry Frémaux estava em Los Angeles para a premiação da Associação dos Correspondentes Estrangeiros. Deu para vê-lo na plateia, quando Fatih Akin e Diane Krueger subiram ao palco, para receber o Globo de Ouro por Em Pedaços. Em seu livro sobre o maior festival do mundo, do qual é o diretor artístico – Cannes -, Thiérry minimiza a questão dos prêmios. Eu já participei de júris, e já prometi a mim mesmo que não participo mais. Sei bem como é. Um prêmio, qualquer que seja, depende da composição do júri. The Square venceu a Palma de Ouro, no ano passado, mas perdeu o Globo para Em Pedaços, que também concorria em Cannes. Eu teria dado o Kikito de melhor atriz para Magali Biff em Gramado, no ano passado, mas ela não levou. E Cynthia Nixon, a excepcional Florence Pugh de Lady Macbeth sequer foram indicadas. O longa de William Oldroyd superpõe de forma complexa duas questões, feminismo e negritude, mas ao procurar agora pelo nome do diretor, que sempre esqueço, encontrei uma crítica na Folha a Lady Macbeth. Diz que o filme é condescendente com personagem fria e amoral. Hã-hã. A Associação (dos tais Correspondentes) deve ter pensado a mesma coisa. Comprei ontem, na banca do Conjunto Nacional, a Film Comment de novembro/dezembro. A revista da Film Society do Lincoln Center traz na capa a chamada The Miracle Worker – que remete a um filme clássico de Arthur Penn. Hong Sangsoo comes to town. Hong! O diretor sul-coreano virou mestre do próprio sistema. No ano passado, estreou três filmes – um em Berlim e dois em Cannes. Todos intimistas, formalmente engenhosos (e prazerosos), levemente surreais e surrealmente leves (no sentido de ‘casuals’). Hong Sangsoo será hoje o mais produtivo autor do mundo? Substitui outro sul-coreano, Kim Kiduk, que também fazia três/quatro filmes por ano, e o Jean-Luc Godard dos velhos tempos. Kim Kiduk! Talvez esteja acabado. Uma atriz deu uma entrevista em Seul acusando-o de abuso. Surreal foi essa entrevista, com a atriz falando com a imprensa por trás de um biombo, para não revelar sua identidade. E o abuso não foi sexual. Ele foi tirano com ela no set. E pensar em Carl Theodor Dreyer, que enlouqueceu Falconetti durante a filmagem de O Martírio de Joana d’Arc. E Vittorio De Sica com o garoto de Ladrões de Bicicletas! F…-se as obras-primas. Tirania, mesmo artística, nunca mais! Film Comment inicia o texto sobre Hong – de Dan Sullivan – com uma citação de Claire Denis. “Admiro os diretores que inventam os próprios sistemas de criação. Um bom exemplo é Hong Sangsoo, que anda fazendo quatro filmes por ano, dez dias de rodagem cada. Quando estou perdida nos meus medos, penso nele. Se Sangsoo consegue, então é possível…’ E é mesmo. Na Praia, à Noite, Sozinha já é um clássico. Vou participar de uma mesa em Tiradentes, sobre o cinema brasileiro atual. A Mostra Aurora é o lugar ideal para se discutir sistemas alternativos de produção. E eu volto ao Globo de Ouro. Se a premiação deste ano sinalizou alguma coisa, foi o tal empoderamento feminino. Foi a questão do ano passado, como a negritude foi do ano anterior. Tenho ouvido falar maravilhas de um épico de Dee Rees, Mudbound. A Netflix chegou a lançar o filme nos cinemas, nos EUA, para credenciá-lo a prêmios. Mudbound ganhou o prêmio de melhor ensemble (elenco) no Gotham, que também premiou, como melhor filme, Me Chame pelo Seu Nome. Não vi o longa de Dee citado na premiação de domingo passado,mas negros, gays – no Globo, neca. Powered women. ‘Ladies and remaining gentleman’, anunciou o apresentador. Damas e cavalheiros restantes… Acho que vou ter de superar minha aversão por esse negócio de prover filmes via streaming, na Smart TV, ou Mac, PC, smartphone, tablet, etc. Mudbound está liberado desde 17 de novembro no (ou é na?) Netflix. Quero muito ver esse filme, até porque, em fevereiro, Pantera Negra deve reabrir o espaço de fala dessa outra questão visceral – espero.