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Cultura » Ainda o céu de Suely

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Luiz Carlos Merten

03 Agosto 2007 | 19h39

Uma da manhã em Tel-Aviv. Após a sessão de O Céu de Suely no 7º festival do Cinema Brasileiro de Israel fui tomar uma cerveja com o criador do evento, Schlomo (Salomão) Azaria, e Guila Flint, da Brazilian Section da BBC, mais uma amiga dela, fotógrafa, que acaba de chegar do Brasil. As duas estavam encantadas com o filme de Karin Aïnouz. Eu também tenho de admitir. Gosto cada vez mais de O Céu de Suely. Vi o filme no Festival do Rio e na Mostra de São Paulo e o acompanhei em eventos internacionais, na Alemanha, na Grécia e agora, em Israel.Cada vez descubro uma coisa diferente, o filme me toca mais fundo em alguma parte. Desta vez viajei na personagem da avó, sentindo, como nunca, a cena em que ela esbofeteia Hermila/Suely. Fiz uma ponte da avó com o Schlomo de O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburger, que havia 9re)visto anteontem. Apesar das diferenças culturais, um velho judeu e uma sertaneja nordestina, há neles a mesma força, a mesma integridade e a mesma abertura para, no limite, compreender e aceitar o outro. Tem gente que me acha maluco quando digo que vejo um filme cinco, seis vezes. Raramente é o mesmo filme. Sempre se pode descobrir e apreciar coisas e, inversamente, reavaliar o que parecia interessante e se revela uma porcaria. Não é o caso do filme do Karin, claro. E eu não me lembrava – Hermila/Suely, na última cena, toma o ônibus para Porto Alegre. Mera coincidência? Beto Brant também tomou o rumo de Porto e lá fez Cão sem Dono. Por que Porto? Pela distância, pelo estranhamento ou por que a cidade que abrigou o Fórum Mundial Social exerce um fascínio sobre o imaginário de esquerda, não só do País, mas ao redor do mundo? Nunca vou esquecer a emoção quando entrei num cinema, em Paris, para ver um elogiado documentário sobre o G-8, o grupo das 8 nações mais ricas do planeta, e meio filme era sobre o Fórum em Porto Alegre, o primeiro. Foi lá que surgiu o slogan ‘um outro mundo é possível’. Misturei tudo. Só quero dizer que Suely é um filme que me seduz. Mais é menos. as personagens falam pouco e o essencial nunca é dito. Poucos filmes, brasileiros ou não, exploram tanto a linguagem do corpo. Hermila Guedes vive dançando. No motel, quando banca a p…, depois de rifar o próprio corpo, ela fica travada quando o sujeito pede que dance. Tudo é sutil, delicado e também forte. Um belo filme.