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Ainda o BIFF…

Luiz Carlos Merten

01 Setembro 2014 | 09h51

Cá estou de volta a São Paulo. Cheguei no começo da tarde e já experimentei todas as estações num único dia. Céu azul e calor na chegada, chuva e temperatura despencando na saída do restaurante. Fui à redação do Estado, porque tinha matéria para a edição de hoje – a crítica de No Olho do Tornado, que achei bem decente e tem uma cena que mexeu comigo. O caçador de tempestades que arrasta sua equipe a situações de perigo e, como Dorothy em O Mágico de Oz, é sugado pelo turbilhão de vento. Dorothy vai parar no reino encantado de Oz e ele é transportado para o alto, chegando ao limiar do espaço (como Chuck Yeager no jato de Os Eleitos, de Philip Kaufman), antes de despencar. Deslumbrante. E se o filme for uma metáfora? O diretor Steven Quale foi assistente de James Cameron. E se, como em Hatari!, de Howard Hawks, caçar tornados ou animais selvagens for um substituto para a caçada de imagens, que é o que fazem os cineastas? Enfim, à noite, já protegido do frio – o calor em Brasília era senegalesco e o ar seco causava mal-estar -, fui jantar e o ao cinema com meu amigo Dib Carneiro. Reencontramos velhos amigos – amigas do Estadão – e eu revi, em êxtase, A 100 Passos de Um Sonho, de Lasse Hallstrom. Experimentei o mesmo encantamento da primeira vez que vi o filme. Ratatuoille, Marcel Proust, o tempo reencontrado. Pensam que foi só Raoul Ruiz? Lá era sopa – o filme, afinal, era uma adaptação da obra. É preciso ver aqui, o momento em que os temperos indianos, qual madeleines, provocam a viagem interior do chef Hassan Kadam. Aproveito para dizer que tive encontros muito felizes em Brasília. A entrevista com Geraldine Chaplin foi mais que uma entrevista. Houve também Charles Tesson, ex-redator-chefe de Cahiers du Cinéma, delegado da Semana da Crítica de Cannes e que está no Brasil como jurado da mostra competitiva. Conversamos sobre a Semana, cinema brasileiro e latino, sobre Geraldine – e como a filha de Charles Chaplin incorporou, subliminarmente, trejeitos de Carlitos, a criação centenária de seu pai. Jantei duas vezes com José Carlos Avellar, que está sendo o debatedor do BIFF, Brasilia International Film Festival, encontrando-se com os autores, após as projeções, para discutir os filmes com eles (e o público). Encontrei no Avellar a mesma expectativa que sinto pelo cinema colombiano, como alavanca de uma nova onda de criatividade nas cinematografias da América Latina. Teremos essa vaga colombiana? Acho que ela já está se manifestando…. No sábado, passei o dia no cinema, vendo filmes do BIFF e acompanhando debates. Gostei demais de A Mais Longa Distancia, de Claudia Pinto Emperador, da Venezuela, que vi no Panorama, bem mais que dos dois filmes da competição – Em Busca do Sentido da Vida, que o italiano Marco Ferrari rodou nos EUA, com coprodução brasileira, e Supernova, de Tamar van der Dop, da Holanda. O filme venezuelano é sobre um garoto que responsabiliza o pai pela morte da mãe e foge de casa, indo ao encontro da avó, que está morrendo e escolheu um monte em Roraima como ponto de não retorno, mas ninguém sabe disso. Ao grupo agrega-se um guia jovem, que precisa dinheiro para resgatar uma dívida e salvar seu pai. É um filme sobre mudanças (segunda chance?), com atores extraordinários – Carme Elias, a avó, e Omar Moya, o neto. Comentei com Avellar – de onde saem essas crianças que representam tão bem? Ele brincou – são os adultos que estão representando mal. Não entrei no filme de Marco Ferrari, embora possa compreender a comoção que vem provocando em meios indies da ‘América’. Um jovem ator submete-se a um experimento. Deixa de ouvir, falar e ver. Para os gringos, é um filme político, de profunda rejeição aos valores que regem a sociedade atual. Achei meio bobo, confesso,. mas gostei de duas ou três cenas, incluindo a entrevista por Skype com a mãe, que fica alarmado ao ver o filho com tampões nos olhos. O holandês é anticlimático. Começa com o suicídio do avô e prossegue numa casa situada numa curva perigosa (à beira do caminho para o nada). A protagonista é uma jovem que arde de desejo reprimido. Um garoto, um cavalão, sofre um acidente e é recolhida pela família. Agora vai (o sexo), pensei, mas ele se interessa pela mãe, interpretada pela diretora, que prefere o marido e ele, face à pressão, sai da crise de abstinência. Antes disso, o marido – o pai – exaspera-se com a sogra, a velha avó, que após a morte do marido, recolheu-se internamente e mexe a cabeça como se tivesse Parkinson (ou como se dissesse não a tudo, o tempo todo). Captei a intenção crítica, mas de novo não entrei no clima. Confesso que gostaria de ter ficado no BIFF para ver hoje La Utilidad de Un Revistero, do argentino Adriano Salgado. O revistero é um móvel que assiste ao embate entre uma cenógrafa e sua assistente, numa reunião de trabalho que vira outra coisa. Pode até vir a ser, eventualmente, uma m…, mas achei intrigante e gostaria de conferir. Que outros, possíveis leitores do blog, o façam por mim.