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Luiz Carlos Merten

25 Outubro 2011 | 09h02

Devo ter errado ‘conscientemente’, só para poder voltar ao assunto. Coloquei ontem que ‘A Harpa da Birmânia’ é um lançamento em DVD da Cult Classics. Não é – é Lume. Mas volto a Kon Ichikawa, porque no momento em que fazia aquelas restrições ao documentário dele sobre a Olimpíada de Tóquio me caiu a ficha de que, na verdade, ele talvez estivesse querendo desmistificar o espírito olímpico, que a nazista Leni Riefenstahl celebrou em seu clássico. Muito já se escreveu sobre a ambivalência de Leni e de como o filme dela, construído em torno ao mito do herói ariano, termina por celebrar o corredor negro que tirou a medalha dos Siegfrieds de Hitler. Talvez, na vitória de Jesse…, esteja a origem da fascinação de Leni pelos lubas, que a levou às África para fotografar aqueles apolos africanos. Mas, enfim, Kon Ichikawa. No começo dos anos 1960, logo após as obras-primas – ‘A Harpa’, ‘Fogo na Planície’ e ‘Estranha Obsessão’ –, ele aceitou uma encomenda e fez ‘A Vingança de Um Ator’, para celebrar o 300º filme de um daqueles atores tradicionais da época, Hasegawa, ou coisa que o valha. Pegando carona no formato do melodrama kabuki, Ichikawa buscava no artista a insolência contestadora. Vi o filme há alguns anos, na França. Tenho para mim que seja a obra-prima de Ichikawa. A Lume bem poderia resgatar o filme. E, ah, sim, a empresa também lançou, no mesmo pacote, ‘Vícios Públicos, Virtudes Privadas’, de Miklos Janczó. O filme é a versão do autor para ‘Mayerling’, que já fora filmado por Anatole Litavak na França, nos anos 1930, e por Terence Young – com Catherine Deneuve e Omar Sharif –, na Inglaterra, no fim dos 60. Janczó foi um mito do cinema de 40 anos atrás. Houve uma época em que ainda lia críticas, agora não dá mais. Tentei ler o que um coleguinha que gostou de ‘Habemus Papam’ escreveu sobre o filme de Nanni Moretti; ele ignorou a única coisa que me parece relevante; o cardeal chama-se Melville, como o autor da obra-prima blasfema ‘Moby Dick’. Naquele tempo distante, acompanhava as notícias da mise-en-scène de Janczó, à base de elaborados planos sequências, mas nunca tive oportunidade de avaliar, no momento da consagração, o impacto de seus (grandes) filmes.