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Luiz Carlos Merten

14 Outubro 2008 | 15h48

Fábio Negro pega carona no post sobre Guillaume Depardieu para refletir que o nu, no cinema, só vale relacionado a uma boa história e as do Guillaume, as dos filmes dele, não lhe parecem o caso. Renato aproveita para dizer que, sim, pelo visto só eu gostava do cara. Não, Renato, pelo menos Jacques Rivette também gostava e foi o que ele disse, ao afirmar na coletiva de ‘Ne Touchez pas la Hache’, em Berlim, que, depois de assistir a ‘Pola X’, que definiu como um filme injustamente ‘méconnu’ de Leos Carax, ficou convencido de que Guillaume era um grande ator a quem se poderia confiar não importa que papel. Nunca saberemos quão grande ele era, dada sua morte prematura e é sempre isso que me dói, quando penso em tanta gente talentosa que se vai sem ter tido tempo de mostrar a que veio. O caso de Guillaume é meio absurdo porque o cara morreu por causa de um virus. E Fábio, as histórias valiam, sim. A de ‘Ne Touchez pas la Hache’ é adaptada de Balzac, ‘A Duquesa de Langeais’, sobre este homem, um militar, que corre o mundo atrás da mulher amada e ela se isolou num convento distante de carmelitas, no qual, ao tentar resgatá-la, ele descobre somente o cadáver de uma morta. Não estou tirando graça nenhuma. É a essência do texto de Balzac, que Rivette, um dos grandes que ainda mantêm viva a herança da nouvelle vague, respeita por meio de um classicismo esplêndido. Só como curiosidade, e desviando do Guillaume Depardieu, Rivette já havia adaptado Balzac, e não da forma tradicional, como aqui, mas modernizando a história, em ‘A Bela Intrigante’ (La Belle Noiseuse), cujo nu de Émmanuelle Béart é a perfeição (e ela ainda representa!). No recente ‘Versalhes’, que vi no Rio, Guillaume faz este homem que vive numa cabana isolada no bosque de Versalhes, um recluso, um ermitão, e que se vê às voltas com um menino que uma mulher abandona com ele. Assistindo ao filme, dias antes da morte do ator, pensei comigo na relação dele com o pai. No filme de Pierre Schöller, esse homem, um estranho, desenvolve uma relação de dependência com o garoto, mostrando que não são só os laços de sangue que unem as pessoas, criando, como neste filme, uma família ‘substituta’ que vai forçar o herói a romper seu isolamento. Continuo insistindo que o Guillaume Depardieu era bom.

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