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Luiz Carlos Merten

17 Dezembro 2010 | 12h39

Redigi ontem rapidamente o post sobre a morte de Blake Edwards e não me veio, na hora, o título da outra série famosa que ele formatou na TV do começo dos anos 1960. Uma foi ‘Peter Gunn’ e depois ele fez, no cinema, ‘Peter Gunn em Ação’, com Craig Stevens. A outra, que me escapava, era ‘Mister Lucky’. Dessa experiência na televisão Edwards tirou dois filmes. Um citei e foi ‘Experiment in Terror’, Escravas do Medo, que tinha aquela trilha de Henry Mancini e usava criativamente, os ambientes naturais de São Francisco. Não creio que tenha escrito isso anteriormente, mas me lembrava muito de ‘Escravas do Medo’ assistindo a ‘Zodíaco’, de David Fincher. O outro filme ‘televisivo’ de Edwards foi ‘Days of Wine and Roses’, literalmente ‘Dias de Vinho e Rosas’, mas ele foi lançado como ‘Vício Maldito’, pelo qual Henry Mancini recebeu seu segundo Oscar consecutivo de canção (parceria com Johnny Mercer), após ‘Moon River’, de ‘Bonequinha de Luxo’, no ano anterior. ‘Lost Weekend’, Farrapo Humano, de Billy Wilder, 1944, é considerado o filme definitivo sobre alcoolismo, mas ele é muito expressionista e tem efeitos demais para o meu gosto. Gosto muito de ‘Vício Maldito’, em que o personagem de Jack Lemmon começa a beber socialmente, pois faz parte do seu trabalho, e arrasta a mulher, Lee Remick, com ele. No final, Lemmon se salva e Lee segue um caminho sem volta na bebida. A cena em que, da janela, Lemmon a vê se afastar, é uma das mais pungentes do cinema e a trilha de Henry Mancini é música para cortar os pulsos. É interessante que Blake Edwards, um rei da comédia, tenha tido essas experiências tão fortes, e intensas, no terror e no drama. Era bom, o velho. Era grande. Gosto até de seu western, como é que se chama?, com William Holden e Ryan O’Neal? Coinfesso que me emocionei, ao entrevistar Julie Andrews, quando perguntei sobre Blake edwards e ela começou a falar sobre ele com um misto de carinho de admiração. Deu para perceber que ele era ranzinza, que seria capaz de sacrificar a mulher, ou o amigo, por uma piada, mas o amor era mais do que evidente enquanto ela falava. A gente raramente pensa na vida dos grandes artistas que admira. Agrada-me que Edwards, tão crítico, tão divertido, tivesse, paradoxalmente, esse lado sereno, e até burguês.