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Ainda Douchet, o Varilux e a VR

Luiz Carlos Merten

09 Junho 2017 | 10h07

RIO – Na abertura de L’Art d’Aimer, há uma entrevista feita por Jean Narboni e o mítico Serge Daney com Jean Douchet. O ano era 1937 – há 30 anos! Narboni e Daney interpelam Douchet sobre Arts Cinéma, o hebdomadário que o entrevistado define como ‘tribuna a serviço dos Cahiers du Cinéma’. Estamos falando dos anos 1950 e 60, da batalha da nouvelle vague, quando François Truffaut e companhia destruíam reputações. Douchet defende seus colegas de geração. Reconhece que havia interesses por detrás, mas não era, como hoje, no CNC, Centre National, uma guerra mesquinha por verbas. Era para afirmar um conceito de cinema. Narboni e Daney vão ao ponto – Arts não era particularmente progressista, ou não era progressista pas tu tout. Dominavam, en pleine guerre d’Algérie, os ‘Hussards’. A resposta de Douchet – “E havia uma Guerra na Algéria? Vocês têm certeza?” Nós (eles, a geração nouvelle vague) que éramos tão alienados… Truffaut foi sempre um pequeno burguês, Jean-Luc Godard evoluiu no espectro político de uma posição de centro/direita para a de um radical de esquerda. Muito interessante, como resgate de uma época, a entrevista, o livro todo. Jean Douchet fazia a cobertura dos festivais. Cannes, 1961. Otto Preminger, Exodus. Jerzy Kawalerowicz, Madre Joana dos Anjos. E Dovjenko, aliás, Madame Dovjenjo, Julia Solntseval – nunca vi o nome dessa mulher grafado do mesmo jeito duas vezes. Julia fez história em Cannes como primeira mulher vencedora do prêmio de direção – que Sofia Coppola repetiu, agora, com O Estranho Que Nós Amamos. Douchet rejeita a estética de Epopeia dos Anos de Fogo, que define, no limite, como vulgar. Julia quer ser fiel ao marido que morreu durante a produção. Douchet rejeita a estética do próprio Dovjenko, mas não sua obra. Ele também ama, como eu, Terra. Adoro fazer essas viagens, como num jornal íntimo. Não sei quantos, ou quem, me acompanha. Estamos em pleno Festival Varilux. A programação, hoje – sexta, 9 – aí em São Paulo, contempla Tal Mãe, tal Filha, de Noémie Saglio, a mesma diretora do delicioso Beijei Uma Garota, às 16h35, no Itaú Augusta; o documentário Amanhã, de Mélanie Laurent e Cyril Dion, às 16h55, no Cine Arte, e o filme estará tendo sessão seguida de debate, aqui no Rio, quase no mesmo horário, no Odeon; e o Rodin de Jacques Doillon, do qual não gostei muito, malgré Vincent Lindon, às 18h35, no Belas Artes. Comecei ontem minhas entrevistas aqui, e gostei particularmente de Michel Reilhac, diretor do curta Viens! e responsável pela mostra de filmes de realidade virtual. O futuro já chegou e Michel está interessado na VR como compartilhamento de experiências que não são possíveis no mundo real, não, como ele diz, como substituição das coisas que não podemos fazer. Entre três e cinco anos, ele possui elementos para dizer, face ao que está sendo investido – muuuuiiito dinheiro -, que a VR estará massificada, deixando de ser experiência de fruição individual. Confesso que não entendi muito bem como isso vai se dar – uns tais novos óculos -, mas vamos lá. Michel Reilhac aproveitou a estadia em São Paulo para visitar o Centro, descendo da Praça da Sé até a da República. Ficou louco parta fazer um filme. “Parece Blade Runner” – o futuro retrô? -, informou. E isso que ele não viu nosso ‘Corra’ real -o terror que virou a Praça Duque de Caxias, que abriga a Cracolândia. O horror, o horror. Conversei no café da manhã com o ator Damien Bonnard, do novo Alain Guiraudie, Rester Verticasl, que já estreia – distribuição da Zeta Filmes – no dia 22, como Na Vertical. Damien apresentou o filme, numa sessão seguida de debate, aí em São Paulo. Apresentou também ontem, no Rio e a chaspa esquentou, porque os únicos espectadores que se manifestaram, e monopolizaram o debate,foram dois homens que odiaram o filme, revoltados com as cenas de sexo, homo e hetero, e principalmente com o parto. Falamos muito da vagina de Gustave Courbet, A Origem do Mundo, e dos filmes de Bruno Dumont, que têm essa mesma espécie de brutalidade naturalista. Os integrantes da delegação francesa participam de debates hoje e amanhã no Rio, e Damien vai amanhã, sábado, 10, a Belo Horizonte. Não é sempre que temos, no cinema, essa possibilidade de encontros com artistas. Agora mesmo, entre Paris e Rio, perdi o Kevin Macdonald aí em São Paulo, no evento da Cultura Inglesa. De minha parte, quero ver hoje, no Varilux, Uma Família de Dois, com Omar Sy, e Frantz, o François Ozon anterior a L’Amant Double, que estava em Cannes, ambos no Odeon, às 14 h e 20h50.