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Luiz Carlos Merten

13 Setembro 2010 | 09h03

Ontem cheguei tarde na própria festa, mas fazer o quê? Enterrar Chabrol com honras era o mínimo que poderia fazer. Era muito jovem por volta de 1960 e os filmes franceses em geral eram proibidos – impróprios –até 18 anos, o que significa que perdi muitos filmes da erupção da nouvelle vague, que fui recuperando depois, em sessões especiais, em Porto Alegre. Em plena ditadura militar, com raras exceções – ‘A Religiosa’, de Jacques Rivette –, os filmes da nouvelle vague não enfrentavam muitos problemas de censura. Os autores eram anarquistas de direita (o Jean-Luc Godard de ‘Le Petit Soldat’, antes da guinada à esquerda de ‘A Chinesa’), ou então só se preocupavam com seus amores, formulando críticas genéricas à burguesia e ao poder, tudo meio politicamente inócuo, ou perfeitamente aceitável. (A ironia dos filhos de Marx e da Coca-Cola em ‘Masculino, Feminino’, em pleno processo de esquerdização de Godard, ficou como uma boutade.) Sei que um monte de coisas eram proibidas, mas os filmes da nova onda se repetiam em ciclos que eu ia consumindo alegremente. Lembro-me de haver assistido a ‘Quem Matou Leda?’ (À Double Tour), policial com Jean-Paul Belmondo, Jeanne Valerie, Antonella Lualdi, Bernadette Laffont e uma veterana que foi premiada em Veneza pelo papel – Madeleine Robinson? –, bem antes que ‘Os Primos’, que havia sido responsável, anteriormente, pela consagração internacional do autor. Quando vi ‘Les Cousins’ pela primeira vez, impressionou-me o clima sombrio e ritualístico, naquelas cenas de interiores concebidas sobre a música de Wagner. Era tudo tão diferente do clima solar – a suntuosa fotografia em cores de Henri Decae – de ‘Leda’. Vi depois os filmes comerciais de Chabrol, ‘O Código É Tigre’, ‘O Tigre se Perfuma com Dinamite’ e, claro, ‘Marie Chantal Contra o Dr. K’, em que Marie Laforet já tinha os olhos de ouro (e nisso se parecia com a Juliette Mayniel de ‘Les Cousins’). Mas eu confesso que o ‘meu’ Chabrol é o daquele biênio prodigioso, 1969/70, em que ele fez ‘A Mulher Infiel’, ‘A Besta Deve Morrer’, ‘O Açougueiro’ e ‘Trágica Separação’. O fecho de ‘La Femme Infidèle’, o movimento de câmera combinado com lente zoom, num efeito visual que Alfred Hitchcock antecipara para expressar na tela a vertigem de James Stewart na cena do campanário em ‘Um Corpo Que Cai’, estava sendo usado ao mesmo tempo por Arthur Penn no final de ‘Deixem-nos Viver’ (Alice’s Restaurant), seu filme hippie, com Arlo Guthrie, que estranha (mas maravilhosa) coincidência. Ainda antes de ‘O Açougueiro’, em que Stéphane Audran é sublime, veio ‘La Bête Doit Mourir’, que Chabrol adaptou de Nicholas Blake, ‘The Beast Must Die’. Ontem não tive tempo de reproduzir minha admiração pela abertura deste grande filme. ‘A Besta’ começa com um acidente – Jean Yanne atropela e mata o filho de Michel Duchaussoy. Ele foge e o outro move implacável perseguição ao assassino. Chabrol monta em paralelo as imagens do carro negro que avança pela rodovia junto ao mar e do menino que brinca na praia. De fundo, os ‘Quatro Cantos Sérios’ de Brahms criam o movimento inexorável, a tragédia iminente. Chabrol não acreditava em acidentes. Fatalista com Fritz Lang, ele crê no destino ao qual não se foge. Jean Yanne, o motorista fugitivo, é um dos mais impressionantes ‘monstros’ chabrolianos. A mulher e o filho são suas vítimas preferenciais e o garoto chega a dizer a Duchaussoy que matará o pai, se ele não o fizer. O final fica em aberto e você pode interpretar o filme de duas maneiras – Duchaussoy pode ter matado Yanne e, neste caso, o filme narra uma história de amor, assassinato e vingança, como ‘O Diabo Feito Mulher’, Rancho Notorious, de Lang, mas o garoto também pode ter matado e Duchaussoy, que não tem mais nada a perder – após a morte do filho – se sacrifica por ele e o desfecho é cristão, a expiação da culpa. Eu amava Chabrol. Entrevistei-o quatro vezes, duas sozinho, uma em Veneza. Era de uma simpatia irresistível. Não se levava a sério – mas sua frase, para definir os anos de produção comercial, é definitiva (‘Filmo não importa o quê, mas nunca não importa como’) –, admitia que filmar e comer eram seus prazeres. Chabrol, o glutão, o gourmet. Como coloquei na abertura do meu texto, hoje na capa do ‘Caderno 2’, o ano está sendo devastador para os remanescentes da nouvelle vague. Tudo bem que Jean-Luc Godard está recusando seu Oscar honorário – afinal, se não for na festa do Kodak Theatre, não é de verdade –, mas as perdas estão sendo grandes. Em janeiro, morreu Eric Rohmer; ontem, Chabrol. Que descanse em paz o Balzac do cinema, autor da Comédia Humana da burguesia interiorana.