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Ainda a polêmica do Oscar

Luiz Carlos Merten

24 Janeiro 2016 | 23h45

Acrescentei ontem aquele texto sobre a polêmica racial do Oscar e imediatamente 1001 questões ficaram regurgitando na minha cabeça. Vamos por partes. Passamos um belíssimo último dia em Bogotá e, para variar, estávamos indo para o aeroporto – Dib, Heitor e eu – e esse Merten aqui já fazia planos de voltar. Amei o Museu Botero, com 123 obras, entre pinturas e esculturas, da coleção particular que Fernando Botero doou ao povo da Colômbia. Impressionistas, cubistas, modernistas. Passava de um Renoir a um Sisley, a um Chagall, a um Toulouse Lautrec e a um Picasso. Como qualquer pessoa minimamente letrada associava Botero às gordinhas, mas me surpreendi ao verificar, in loco, o grande artista que ele foi. Domínio da cor, da figura, do espaço, diálogos com os mestres (La Tour, Velázquez etc). E as esculturas! O cara era gênio. Pode-se ver em sua obra a semente do realismo mágico associado a outro grande colombiano, o Gabo. E Botero produzia feito um maluco. Depois de duas horas de Botero ( e seus mestres), almoçamos no Manzana, o restaurante do museu. Delicioso. Fomos ao Centro Cultural Gabriel García Márquez, que dista uns 200 metros, e à catedral de Bogotá, que fica na mesma rua, descendo mais um pouco. Juro que, se não tivesse marcado para ver hoje, aqui em São Paulo, o Paulo Gustavo – e se não embarcasse amanhã cedo para Tiradentes (e a Mostra Aurora) -, teria proposto ao Dib e ao Heitor para ficarmos mais uns dias na Colômbia. Volto à polêmica do Oscar. Mal acrescentei o post e já queria reformulá-lo. Citei Woody Allen e comecei a pensar com meus botões. Ele já ganhou melhor filme, diretor, atriz, incontáveis prêmios de coadjuvantes (masculinos e femininos) e outros tantos prêmios de roteiro – e, nunca, dei-me conta, em sua extensa obra, Woody Allen criou um personagem negro. Nunca? Cheguei hoje, fiz uma pesquisa e, não, ele criou uma (uma!) personagem afrodescendente. Foi em Desconstruindo Harry e ela era uma prostituta. Alguém poderá dizer que isso faz de Woody Allen a cara do Oscar. Branco e preconceituoso, politicamente incorreto (e injusto) com as mulheres negras. Mas, ao mesmo tempo, dou-me conta de que todas essas carapuças não cabem. Pensei também em Dorothy Dandridge. Hattie McDaniel foi indicada e ganhou o Oscar de coadjuvante em 1939 – na verdade, 40 -, mas a sexy Dorothy foi indicada para melhor atriz, e perdeu, em 1954. Ela foi a primeira atriz negra indicada para o Oscar principal, por seu papel em Carmem Jones, de Otto Preminger. Concorriam, também, Judy Garland (Nasce Uma Estrela), Jane Wyman (Sublime Obsessão), Audrey Hepburn (Sabrina) e a vencedora, Grace Kelly, por Amar É Sofrer, Country Girl, de George Seaton. Pode até ser que Dorothy não merecesse, mas a disputa deveria ter sido entre Judy Garland e ela, e eu teria votado em Dorothy, mas, coincidência ou não, em 1955, quando o prêmio foi atribuído, Grace já conhecera o príncipe Rainier, com quem se casaria no ano seguinte. O Oscar veio coroar a carreira da princesa de Hollywood, que viraria princesa de verdade – Sua Alteza Sereníssima – no ano seguinte. Muito conveniente, mas a história de Dorothy teria sido outra, graças ao prêmio, e ela talvez não tivesse sido encontrada morta na banheira, dez anos mais tarde – em setembro de 1965 -, vítima de uma dose excessiva de barbitúricos. Quando isso ocorreu, Dorothy, que fora amante de Preminger – e ele lhe ofereceu outro grande papel em Porgy e Bess -, vivia o mais amargo ostracismo. Conta-se que tinha apenas dois dólares (e 14 centavos) na conta bancária e teria sido enterrada como indigente, se a mobilização de amigos não lhe garantisse pelo menos um funeral decente. São tantas histórias escabrosas que vou terminar dando razão a Will Smith e Spike Lee em seu protesto contra a ausência de intérpretes negros no Oscar.