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Cultura » Ainda a lista de ‘Empire’

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Luiz Carlos Merten

17 Junho 2010 | 18h54

Sabia que vocês não iam me falhar, mas sorry por não ter tido tempo de postar antes. Agradeço à Márcia que me informou que a lista da ‘Empire’ é somente para filmes não falados em inglês. Achei interessante que o número um tenha sido um Kurosawa, e ‘Os Sete Samurais’ fornece uma súmula do movimento e dos paradoxos em que ele era mestre. Achei o 2 no mínimo estranho, ‘Amélie Poulain’ – esses ingleses são doidinhos, não?, – e o 3 já nos devolveu a território mais conhecido, com Eisenstein, ‘O Encouraçado Potemkin’, claro. O 4 foi um De Sica, do auge do neo-realismo, ‘Ladrões de Bicicletas’ e o filme, curiosamente, estará sendo reprisado domingo na TV paga (às 23h50, no TCM). De Sica, como Rossellini, tem sido contestado nos últimos anos.  Jean Tulard, no ‘Dicionário de Cinema’, enumera os defeitos que têm colocado a obra do cineasta sob suspeita – pieguice, exploração abusiva das crianças (os ingleses não devem ligar para isso, pois a acusação também já foi feita ao Fernando Meirelles de ‘City of God’), miserabilismo etc. Não comungo dessa fúria revisionista e tenho para mim que a última cena de ‘Ladrões de Bicicletas’, quando o pequeno Enzo Staiola aperta, solidário, a mão do pai, é um dos grandes momentos da história do cinema. Sobre De Sica, aproveito para dizer o que muitos de vocês talvez já saibam. A Art Filmes lança em julho o documentário ‘Vittorio De Sica’ e eu adoraria que, na sequência, Ugo Sorrentino, o sr. Art, trouxesse para o Brasil outro documentário, o sobre Pietro Germi, que passou em Cannes Classics, no ano passado, aproveitando para relançar nos cinemas ‘Senhoras e Senhores’, como a distribuidora Carlota fez na França e o filme, vaiado ao receber a Palma de Ouro, agora foi saudado como obra-prima. O 5 e o 6 da lista são ocupados, respectivamente, por Guillermo Del Toro (‘O Labirinto do Fauno’) e Gillo Pontecorvo (‘A Batalha de Argel’), dois filmes de recorte político, um alegórico, fantástico, e o outro, realista nos limites do documentário.  ‘Cidade de Deus’ foi o sétimo, ‘O Sétimo Selo’, o oitavo – é um belo Bergman, também alegórico (a partida de xadrez do cavaleiro com Deus), mas eu, se tivesse votado, teria cravado ‘Morangos Silvestres’ – e o 9 e o 10 foram ‘O Salário do Medo’, de Henri-Georges Clouzot, e ‘Spirited Away’, que Flávia Guerra, ao meu lado na redação do ‘Estado’, me elucidou. É o ‘Viagem de Chihiro’. Sorry, mas meu Myiazaki favorito é o do castelo que voa. Xokito tem razão. Como toda lista, esta é polêmica, talvez seja até mais, mas é sempre interessante ver o gosto dos outros porque nos leva a avaliar nossas preferências, os filmes em que votaríamos e isso é estimulante. Marcos lembra que os ingleses gostam de ‘City of God’ e não é de hoje. O filme ganhou aqueles prêmios todos na Inglaterra. E, sim, concordo com Fernando Severo. Sem Visconti nem Resnais e com Jean-Pierre Jeunet (‘Amélie’), a credibilidade da lista de ‘Empire’ fica mais questionável do que o De Sica na boca de seus detratores. Perguntei à Flávia (Guerra), que morou em Londres, que que é essa ‘Empire?. Ela me disse que é uma… melhorada. Sorry, mas Flávia me desautorizou a publicar sua definição, porque não quer perder amigos na imprensa dita ‘especializada’. Espero que o assunto renda.