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Luiz Carlos Merten

21 Agosto 2007 | 11h39

Acho que já escrevi isso outro dia, mas, enfim, lá vou eu de novo. É sobre fotografia. Grandes diretores que fizeram avançar a linguagem contaram com a ajuda de fotógrafos que seguraram suas ousadias. O caso mais notável é o de Orson Welles, trabalhando com Greg Tolland, mas o que seria de Mário Peixoto sem Edgar Brasil, de David Lean sem Freddie Young, de Ingmar Bergman sem Sven Nykvist (em seus filmes coloridos) e tantos outros casos memoráveis? A gente poderia listar facilmente dez filmes coloridos e dez em preto-e-branco, nos quais a fotografia não é apenas bela nem funcional, ela vira o próprio filme. O que seria de Dois Destinos (Cronaca Familiare), de Valerio Zurlini, sem as cores pastosas de Giuseppe Rotunno? Peppino Rotunno, como também era conhecido, foi fotógrafo de Visconti e Fellini. É mole? O que seria de Sindicato de Ladrões, de Elia Kazan, sem o preto-e-branco genial de Boris Kaufman, irmão de Dziga-Vertov? O máximo, para mim, é a cena de Ali (Omar Sharif) avançando para Peter O’Toole como uma miragem no deserto, em Lawrence da Arábia. Aquilo é o ápice da parceria entre David Lean e Freddie Young, mas o filme tem outra cena memorável. A de Lawrence exibindo sua túnica branca, contra o sol, no alto do trem. O mais incrível é que Lean não queria a cena. Foi seu diretor de produção, ou assistente – não me lembro o cargo -, Andre De Toth, quem encheu tanto o diretor que conseguiu autorização para filmar. De Toth foi ele próprio um grande diretor, o quarto caolho de Hollywood (com John Ford, Fritz Lang e Raoul Walsh). Freddie Young e ele se esmeraram. É um caso único. Lean, um perfecionista, gostou tanto do plano que não filmou que incorporou a imagem ao filme e ela é decisiva para expressar o narcisismo que está na origem do homossexualiasmo reprimido do personagem. Ao ser violentado pelo bei turco, Lawrence vai levar sua violência para o exterior, tornando-se um justiceiro sanguinário, mas ela se volta contra ele e termina por destruí-lo. Que filme! Seria o mesmo sem Freddie Young? Difícil, difícil…