Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Ainda a Berlinale…

Cultura

Luiz Carlos Merten

17 Fevereiro 2009 | 13h26

Já estou de volta em São Paulo. Olá! Mais de um mês no périplo Paris/Lisboa/Berlim/Paris de novo. Não me queixo, claro que não, mas é bom estar de volta, ainda por cima na véspera do carnaval. Vocês sabem como sou carnavalesco. Tudo o que quero é assistir ao desfile das escolas de samba, que tenho perdido. nos últimos anos, justamente por causa da coincidência de datas com a Berlinale. Tenho 1001 histórias sobre os filmes que vi em Paris no domingo e ontem. Só eu para ver seis filmes e duas exposições em dois dias – queria ter visto mais. Antes, permitam-me voltar ao assunto Berlinale. Tenho pensado bastante no filme de Claudia Llosa, ‘La Teta Asustada’, que eu escrevia sempre com dois Ss, aqui como no ‘Caderno 2’. Pior que isso era o meu medo de confundir a diretora. Não me perguntem por quê – Feud deve explicar –, mas minha tendência, uma vez escrito o nome Claudia, era acrescentar Puenzo, em vez de Llosa. Lucia Puenzo também estava na Berlinale, no Panorama, mas seu novo filme é decepcionante, ‘El Niño Pez’, decepção tanto maior porque havia gostado do precedente, ‘XYZ’. Dei uma checada ontem nos jornais parisienses – ‘Le Monde’, ‘Libé’, ‘Le Figaro’ –, para ver como a crítica havia recebido a premiação. Para os coleguinhas, o júri presidido por Tilda Swinton tirou, da seleção da Berlinale de 2009, a premiação que era possível, devolvendo ao festival sua vocação política, da qual o próprio diretor artístico do evento, Dieter Kosslick, estaria se afastando, em nome do glamour (e do mercado, que o de Berlim agora é forte). Alguém me pediu que publicasse uma sinopse de ‘La Teta Asustada’ – ‘The Sorrow Milk’, em inglês – para dar uma idéia de como é o filme. Começa com uma velha índia que canta uma cantiga sobre como foi violentada. É a mãe da protagonista (Magaly Solier), que logo em seguida morre. A garota assumiu, pelo leite materno, o medo do estupro, pois essa é uma crença (popular e indígena), com raízes profundas no imaginário das poblaciones que foram submetidas à violência do terror (pelo grupo Sendero Luminoso, que Claudia não identifica). Para manter os homens à distância, a heroína introduz na vagina uma batata, que deixa raízes no terreno fértil. E tudo se passa durante os preparativos para um casamento, com a garota tentando trasladar o corpo da mãe para o interior e seu tio querendo enterrá-la de qualquer maneira, para não empanar o brilho da festa. É o segundo longa de Claudia, que já havia feito ‘Madeinusa’, sobre a última virgem de uma comunidade indígena, que o próprio pai tenta desvirginar, durante outra festividade. O tema da sexualidade persegue Claudia Llosa – uma bela mulher, vale acrescentar – e ela o trata de forma alegórica, um pouco à Lucrecia Martel, mas sem o rigor da colega argentina. Já disse que acho o filme bem interessante e, quanto mais penso, mais interessante me parece, mas tenho a sensação de que ‘La Teta Asustada’ vai agradar mais às mulheres, assim como o uruguaio ‘Gigante’, de Adrián Biniez, agrada mais aos homens (ou me agradou). Já disse que achei muito legal essa premiação dos dois concorrentes latinos da competição. Acho que o júri fez uma clara opção pelos novos talentos, é verdade que sacrificando bons filmes de veteranos. ‘Chéri’, de Stephen Frears, o filme de Chen Kaige ‘Forever Enthralled’ e o de Andrzej Wajda, ‘Tatarak”, me pareceram muito legais – e até mais ‘acabados’, ou intrigantes, do que ‘La Teta…’ –, mas o único premiado foi Wajda, talvez porque o diretor de 83 anos mude seu estilo e arrisque bastante com essa adaptação, que não é bem uma adaptação (da história curta de Jaroslaw Iwiszkiewicz) , mas uma investigação de linguagem nas bordas da ficção e do documentário. Enfim, espero que Gramado, e o Festival do Rio, e a Mostra, tragam todos esses filmes para a apreciação de vocês. O negócio é esperar.