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Luiz Carlos Merten

02 Julho 2012 | 10h18

Tive um fim de semana típico, isto é, movimentado. Vi peças, filmes, almocei e jantei (com minha filha e amigos), mas não me senti muito estimulado a postar. Ando querendo fazer um post legal sobre ‘O Abrigo’, de Jeff Nichols, com Michael Shannon, que saiu diretamente em DVD. Na época do Oscar, vocês devem se lembrar que disse que não entendia como Shannon, o melhor ator do ano (para mim) sequer havia sido indicado para a estatueta da Academia de Hollywood. Ainda volto ao ‘Abrigo’, podem deixar. Queria postar alguma coisa sobre a polemica entre Sá Leitão, da RioCine, e a Associação Brasileira de Críticos, mas temo ser ofensivo com todo mundo. Sá Leitão fala mais que a boca, um para-te quieto até que viria bem. Na noite de premiação do Festival do Rio, no ano passado, ele antecipou, de pouco, a vitória de ‘A Hora e a Vez de Augusto Matraga’, o que levantou suspeitas (infundadas) sobre o belo filme de Vinicius Coimbra. Mas realmente, e sem acompanhar as polêmicas, não consigo levar a sério o que me contam. Sou do tempo em que as associações e sindicatos brigavam com a ditadura. Hoje, na falta de grandes causas, tenho a impressão de que as pessoas se apequenam à toa. Defendendo ‘E aí, Comeu?, Sá Leitão fez uma brincadeira idiota, do tipo que os críticos são mal comidos e a associação reagiu, em defesa da categoria. Não sei em que termos, Flávia Guerra, que me mantém informado dessas disputas, não me contou – Não, nós estamos bem comidos (ou somos bons comedores). É o ó. Escrevi no jornal sobre o ‘Fausto’, do Sokurov. Fui pautado para isso. Confesso que, no fundo, nem queria. Podem me chamar de louco, mas aquele ‘Fausto’, com Leão de Ouro e tudo, me parece bem irrelevante. Não serve ao cinema nem à literatura. Goethe escreveu sua obra-prima como peça, dividida em cenas, não propriamente atos, e em versos rimados. Seu texto é para ser lido, não encenado. Por que? Porque numa obra que discute o poder, tenho a impressão que, no fundo, o importante é o poder da imaginação. Tudo o que Sokurov faz para visualizar o texto me parece que o banaliza, não engrandece. E terminar a tetralogia sobre os monstros do poder com um personagfem de ficção me parece o ó. Depois de ‘Moloch’, ‘Taurus’ e ‘O Sol’, de Hitler, Lenin e Hiroito, Sokurov podia muito bem ter filmado o Putin, o novo czar da Rússia. Claro que iria correr riscos, mas não creio que não o tenha feito por covardia. Sokurov é russo branco, antirrevolucionário de carteirinha. Provou-o indo contra Eisenstein em ‘A Arca Russa’ e contra Pudovkin em ‘Alexandra’, seu melhor filme. Peguei carona em Otto Maria Carpeaux, que na História da Literatura Ocidental analisa Goethe como antirrevolucionário, sem prejuízo de seu gênio. Fico de cara quando dizem que ‘Fausto’ é grande cinema. Aqui, ó. Onde? Espero que a associação não emita uma nota contra mim. O ai!, aí de cima, é macunaímico. Que cansaço!

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