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Luiz Carlos Merten

10 Novembro 2010 | 10h03

Não sei se aprovo as polêmicas que o próprio Arnaldo Jabor vem criando, usando sua coluna, para promover/debater ‘A Suprema Felicidade’, mas o que sei é que ele não seria o polemista que é, na TV e na mídia impressa, se não o fizesse. E o que quero dizer é o seguinte. Fui rever o filme na segunda à noite com meu amigo Dib Carneiro, na verdade fui ver pela quarta vez. Quarta! É bom demais, gente. E o curioso – para um filme com fama de datado, fragmentado, narcisista, que não acontece etc – é que nada, nem minhas divergências políticas com Jabor, me impede de viajar nas belíssimas imagens do filme nem de me emocionar, sempre nas mesmas cenas, duas ou três das quais me levam às lágrimas. A propósito disso, dei uma olhada já faz algum tempo no quadro de cotações do guia da concorrência e havia um comentário, a famosa frase de efeito, acho que de Inácio Araújo, mas não quero afirmar que sim, sobre ‘Um Doce Olhar’ – ‘Berlim crê em lágrimas’. Entendi como uma tentativa de desautorizar o belíssimo filme do turco Semih Kaplanoglu, do qual posso ser um solitário defensor, mas isso muito me alegra. O Urso, afinal de contas, foi mais merecido do que a Palma de Ouro de ‘Tio Boonmee’, o que também não tira os méritos do filme do tailandês Apichatpong Weerasethakul. Mas eu não entendo porque críticos têm de ter medo da emoção. Brecht não acaba com a catarse da tragédia grega, não acaba mesmo, e o que seria de Shakespeare sem a grandeza que redime até seus personagens mais abomináveis, aquele Macbeth, por exemplo? ‘Um Doce Olhar’ tem um dos grandes momentos do ano, um dos grandes da história do cinema, quando o pai de Yusuf sussurra para o filho que um sonho não deve ser contado alto. Aquilo acaba comigo. De volta a Jabor e ‘A Suprema Felicidade’, ouvi de uma amiga que buscava desesperadamente os defeitos do filme – ela é desafeta de Jabor, assume – o reparo de que até Nanini, que tanto amo, é jovem demais para fazer aquele avô. Ai, ai. Estou suspirando cá comigo. Aliás, nas quatro vezes que vi ‘A Suprema Felicidade’ me encanta como o filme é cuidado, bem feito e isso vindo de um diretor que há quase 20 anos, ou mais, estava inativo. A maquiagem de envelhecimento é boa demais em ‘A Suprema Felicidade’, melhor do que em muita produção de Hollywood, e ela derruba ‘O Senhor do Labirinto’, do qual gosto tanto, mas gosto menos, justamente porque aquela Pietà seria muito melhor, e mais emocionante, com os atores adequadamente envelhecidos. Dito isso, quero acrescentar que me encanta a forma como Jabor trabalha a reconstituição de época, em planos fechados, parece que o faz por economia, mas aí ele abre e a gente vê em planos gerais o efeito global. A cena do Mangue é genial e a atriz que faz a p… assassinada tem um tipo físico, uma beleza agreste, que sempre me deixa embasbacado. E a coreografia, o carnaval? O que são aqueles planos? E as piadas do pipoqueiro, que João Miguel agiganta e transforma, de um pequeno personagem, numa figura inesquecível? Adoro aquele ‘ai ai ai, ui ui ui’. Saí de novo, pela quarta vez, em êxtase do cinema. Jabor e eu podemos discordar na política. Fazer o quê? Ninguém é perfeito, como dizia o velho Billy Wilder – ele não é. Ha-ha. Mas no cinema estamos ali, ó. Ah, sim, disse que revi o filme com Dib Carneiro. Ele gostou demais. Nossa colega Regina Cavalcanti, em férias, também foi ver. Amou. E vocês?