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Cultura » Ahab e o homem que queria ser rei

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Luiz Carlos Merten

24 Fevereiro 2016 | 18h47

PARIS – E, afinal, a cópia não era nova. Só que, ao mesmo tempo que se desculpava pela precariedade da cópia que íamos ver, o gerente da sala – a Filmoteca do Quartier Latin – garantia que não faltava nenhuma cena. “E é melhor uma cópia ruim que nenhuma”, acrescentou. Fúria Selvagem/Man in the Wilderness. Na França, Le Convoi Sauvage. O mesmo personagem, de The Revenant, de Alejandro González-Iñárritu, que insisto em chamar de O Retorno, quando o filme se chama O Regresso no Brasil. Hugh Glass, mas na versão de Richard C. Sarafian, o personagem chama-se Zachary Glass. Atacado por um urso, com o corpo destroçado, ele é abandonado para morrer a mando do Capitão Henry. Mas sobrevive e parte em busca de vingança. Zach é interpretado por Richard Harris, cujo cartaz estava no auge, no começo dos anos 1970. Logo em seguida viria a série d’O Homem Chamado Cavalo, escrita pelo mesmo Jack De Witt a quem se deve o roteiro de Fúria Selvagem. Na versão de Sarafian e De Witt, Zach Glass é um órfão de mãe que perde a mulher e, sentindo-se incapaz de criar o filho, parte para a natureza selvagem. A dor o endurece, fortalece o ódio, mas aí vem o episódio em que Zach, oculto, vê a índia parir. Ele vê a sua dor, mas também o sentimento de plenitude que o bebê lhe proporciona, e também ao pai. A cena reata com outra do começo, Zach e a mulher e as coisas que ela lhe diz sobre Deus e a criação. Zach reconstroi-se. Richard Harris era um ator da lavra de Marlon Brando. Cultivava os personagens masoquistas, que amadurecem pela dor física. Leonardo Di Caprio vai pela mesma linha. É o ano dele no Oscar, Leo vai, finalmente, ganhar seu Oscar de ator. Inárritu vai ganhar seu segundo Oscar de direção, após o de Birdman, e a dúvida é se O Regresso leva também o prêmio de filme. O Sindicato dos Produtores escolheu Spotlight e, nos últimos oito anos, o filme premiado pelos produtores tem levado também o prêmio da Academia na categoria principal. Em Fúria Selvagem, o Capitão Henry leva seu barco pelo seco, prejudicando o avanço da expedição pelo inverno rigoroso. Aos homens que lhe pedem para queimar o barco, ele responde que não. O barco é o símbolo do seu passado no mar, e se o destruir estará destruindo a própria identidade. Henry abandonou Zach, a quem chamava de filho (mas não era o pai). Henry é obsessivo. Sempre achei que Sarafian havia escolhido John Huston pelo papel por causa do Capitão Ahab – Huston adaptou Moby Dick e estava familiarizado com o romance de Herman Melville e seu personagem emblemático. Hoje, revendo Fúria Selvagem, bateu-me outra ideia. Ahab filtrado por Rudyard Kipling, O Homem Que Queria Ser Rei. Huston já havia tentado adaptar The Man Who Would Be King nos anos 1950, com Humphrey Bogart e Errol Flynn. Depois de Fúria Selvagem e do Capitão Henry, o projeto voltou com força e ele o concretizou com Sean Connery e Michael Caine. Não foi só Huston que Sarafian influenciou. Inárritu não tem grandeza para admitir que Sarafian foi um precursor – em sucessivas entrevistas à imprensa francesa, a única que tem feito a ponte entre os filmes, o mexicano dá de ombros. Sarafian, o grande, foi farol até para Werner Herzog. Sem o Capitão Henry, carregando seu barco, talvez não houvesse Fitzcarraldo. Saí do cinema num estado de euforia, consciente de haver assistido a uma grande aventura.