Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Ah, o velho preto e branco

Cultura

Luiz Carlos Merten

09 Novembro 2010 | 11h52

Na correria da Mostra, nem deu para assinalar que a Sala Cinemateca apresenta um ciclo em homenagem a Tony Curtis, que morreu há pouco. Um dos filmes que compõem o programa é ‘Acorrentados’ (The Defiant Ones), de Stanley Kramer, de 1958. Ontem, passei na 2001 para comprar o DVD de ‘A Bela e a Fera’, que precisava dar de presente. Descobri alguns lançamentos que me interessaram bastante. Sobre ‘O Homem de Alcatraz’, já acrescentei um post. Sobre ‘Odeio Essa Mulher’, de Tony Richardson, cartão de visitas do chamado ‘free cinema’, falo daqui a pouco. Agora, quero falar de ‘Acorrentados’, que também saiu em DVD. Pertenço a uma geração que odiava, mais do que tudo, a falta de sutileza do diretor Kramer, que havia sido um produtor com fama de corajoso, e polêmico. Kramer produziu filmes que puseram o dedo em diversas feridas – macarthismo, bastidores do pugilismo, racismo etc. Esse último tema lhe rendeu dois grandes sucessos de público quando se tornou, ele próprio, realizador. Revi outro dia na TV paga ‘Adivinhe Quem Vem para Jantar?’ e o filme é bem demagógico e superficial, embora seja difícil resistir ao embate entre Spencer Tracy e Katharine Hepburn – que formavam um casal na vida. Foi o último filme que fizeram juntos (e o último dele). Depois de encarnar várias vezes a feminista avant la lettre em comédias ao lado do companheiro, Katharine empunha aqui a bandeira dos direitos civis, numa época, 1967, em que os EUA ardiam – o Sul, principalmente – pela pressão dos negros que, com razão, não aguentavam mais ser segregados. Quase uma década antes, o tom de ‘Acorrentados’ era outro. Tony Curtis e Sidney Poitier fogem da cadeia juntos – e algemados. O branco arrogante e o negro revoltado começam se odiando, mas um necessita do outro e, à medida que a caçada se intensifica, vão ficando mais próximos e até solidários. Ambos precisam se ouvir e comunicar. Com o conhecimento mútuo, vem o respeito, se não necessariamente a amizade. Hitchcock já havia usado algemas para falar do casal (em ‘Os 39 Degraus’). Kramer carrega no background social, os atores são ótimos – especialmente Curtis, empenhado numa cruzada pessoal para provar que não era só um cara bonito, mas um verdadeiro ator. ‘Acorrentados’ tem uma bela fotografia em preto e branco – se não me engano de Sam Leavitt – e a propósito desse filme e de ‘O Homem de Alcatraz’, não posso deixar de lembrar de François Truffaut, que declarou certa vez que os filmes eram muito mais bonitos em PB. Tenho certeza de que ‘Acorrentados’ ganhou dois Oscars, e um deles foi justamente o de fotografia. O outro foi de roteiro original, e a coincidência é que ’Adivinhe’ também ganhou mais tarde o Oscar de roteiro (além do de melhor atriz para Katharine). Estou seguro de que um dos roteiristas era o ator Nedrick Young, mas ele ganhou escondido por trás de pseudônimo, pois estava na lista negra do macarthismo – contra o qual se haviam insurgido Kramer, o roteirista Carl Foreman e o diretor Fred Zinnemann num western que considero superestimado, ‘Matar ou Morrer’. Apesar de tudo isso, não creio que ‘Acorrentados’ seja um bom filme, nem para os padrões de Kramer. A mão do diretor é pesada demais e a narrativa, até por seu simbolismo, exigia o que Kramer não tinha, a tal sutileza. Mas a verdade é que, mesmo me arriscando a levar pedradas, tenho de confessar que o ‘indefensável’ – ele sempre foi tratado assim – Kramer tem dois filmes que não me canso de (re)ver na TV paga. São dois filmes de tribunal, que ele fez de forma consecutiva, em 1960 e 61, ‘O Vento Será Sua Herança’ e ‘Julgamento em Nuremberg’. Kramer, até por ser produtor, sempre gostou dos elencos ‘all star’. Não resisto ao cabotinismo genial de Fredric March no primeiro nem aos ‘números’ de Montgomery Clift e Judy Garland no segundo.

Encontrou algum erro? Entre em contato