Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Agora, sim, ‘Os Pecados de Todos Nós’

Cultura

Luiz Carlos Merten

30 Janeiro 2011 | 18h22

CARMO DO RIO CLARO – Estou surtado. No seu comentário sobre o post ‘ Generosidade’, Mauro Bider  diz que comprou o DVD de ‘Os Pecados de Todos Nós’ e se confessa siderado pela interpretação antológica de Marlon Brando. Veja como são as coisas, Mauro. Até aqui, estou reproduzindo, o texto que tentei postar anteriormente. Havia gostado tanto dele, mas, na hora de salvar, o  texto sumiu. Estou redigindo diretamente no corpo dos posts, num laptop, e sem mouse tenho a maior dificuldade para definir, salvar e copiar os textos. Tenho pedido ao Dib que faça isso por mim. Como ele estava numa conversa animada com Gabriel Villela, resolvi poupá-lo. Nas vezes anteriores, todos os textos foram parar direitinho no blog. É a lei de Murphy. Este se perdeu. Vou começar de novo. Veja como são as coisas, Mauro (de novo). Ontem à noite, Dib, Gabriel e eu ficamos horas falando de interpretação – de Marlon Brando e, justamente, ‘Os Pecados de Todos Nós’. Conversamos também sobre Paul Newman, tão grande ator (de cinema) quanto Brando e se alguém duvida disso que reveja os dois belíssimos filmes que Richard Brooks adaptou de Tennessee Williams, ‘Gata em Tetro de Zinco Quente’ e ‘Doce Pássaro da Juventude’, oferecendo-lhe aqueles papeis. De volta a ‘Os Pecados de Todos Nós’, já escrevi aqui que considero o filme um divisor de águas na carreira de John Huston. Na verdade, a divisão já vinha sendo esboçada desde ‘Freud, Além da Alma’, quando Huston biografou o pai da psicanálise, usando como material o roteiro de Jean-Paul Sartre que considerava infilmável (mas que lhe serviu como ferramenta de estudo e informação). Na sequência de ‘Freud’ surgiu ‘A Noite do Iguana’, também adaptado de Tennessee Williams, com Richard Burton, Ava Gardner e Deborah Kerr, e, pouco depois, ‘Os Pecados’. O filme é uma adaptaçãso do romance de Carson McCullers, ‘Reflections in a Golden Eye’, reflexos (ou reflexões) num olho dourado. A frase inicial é uma marasvilha – ‘Não existe lugar mais monótono, ou desinteresse, do que uma base militar em tempos de paz. Não acontece nada.’ Pelo contrário, ocorre tudo em ‘Os Pecados de Todos Nós’. Entre outras coisas, Brando faz um militar, casado com Elizabeth Taylor, que morre de tesão por soldadinho que cavalga nu e, secretamente, visita sua mulher (Liz) à noite, sentindo por ela o mesmo desejo que Brandfo experimenta por ele. Huston ia fazer o filme com Montgomery Clift, o seu Freud, mas ele morreu em plena preparação e Brando concordou em substituí-lo. Foi melhor para o personagem (e o filme). Monty teria levado sua fragilidade para o papel, e ele estava morrendo, muito debilitado. Brando é mais vigoroso. Na cdena chave, Brando é professor, está na sala de aula, falando para todos aqueles recrutas. De repente, ele inicia uma viagem, um delírio, e começa a falar sobre a beleza e o desejo de uma forma muito tortuosa. Brando, o personagem, sai do armário e Brando,o ator, que era bissexual – dizem -, deve ter percebido todas as nuances e implicações do que devias dizer e, principalmente, do que devia omitir. Num certo sentido, ele implode em cena, o que, para mim, remete ao Dirk Bogarde de ‘Morte em Veneza’, de Luchino Visconti, que também implode, na cena final, na praia do Hotel dês Bains. Só que Visconti filma a máscara de Dirk Bogarde derretendo, aquela maquiagem toda que escorre, e Huston não imprime maquiagem nenhuma na cara de Brando para chegar ao mesmo efeito. Amo Visconti, vocês sabem, mas ‘Morte em Veneza’, por mais belo que seja, não é, entre seus filmes, um de meus favoritos. Acho que  o homossexualismo do cineasta se superpõe à discussão sobre a beleza, fica um terreno minado.  Prefiro muito mais cineastas heteros, como John Huston e o Robert Aldrich de ‘Triângulo Feminino’, falando sobre o assunto.  Aliás, muito se fala no homoerotismo de Aldrich (em ‘Os Doze Condenados’ e ‘O Imperador do Norte’, ou em ‘Vera Cruz’, em que Burt Lancaster tem aquela fala provocadora para Gary Cooper – ‘Quem você prefere, os cavalos ou eu?). A propósito de ‘Triângulo Feminino’, no recente post sobre Geórgia Gomide, esqueci-me de assinalar que ela fez história na TV ao protagonizar o primeiro beijo entre pessoas do mesmo sexo numa novela. Foi em ‘Calúnia’, na antiga Tupi. Geórgia fazia uma professora lésbica que tascava um beijo numa colega – em 1963, há quase 50 anos. De volta a ‘Os Pecados de Todos Nós’, o filme sempre me apaixonou como uma obra adiante de seu tempo. O próprio Brando, por mais genial que seja, não é páreo para Zorro David, um ator filipino cuja carreira não sei se foi adiante. Zorro faz o amo de companhia de Julie Harris, a mulher do general Brian Keith, o comandante da base. Ele tem um monólogo que é um delírio, no qual também fala sobre  o desejo, mas seu monólogo tem como referência os peixes de um aquário, o que remete ao narcisismo do gay como uma espécie de suspensão da própria vida (o estar suspenso, sem gravidade, dentro d´água). Fiquei muito feliz de saber, agora pelo Mauro, que ‘Os Pecados de Todos Nós’ está sendo lançado em DVD com a tonalidade dourada da fotografia que Huston e o fotógrafo – tenho quase certeza que Oswald Morris, trabalhando de novo com o diretor, após ‘Moby Dick’ – tanto queriam e a distribuidora Warner vetava, convencida, por seus marqueteiros, de que o realismo era o que mais convinha para a carreira comercial do filme. Não deu certo. “Os Pecados’ não foi bem de público e consolidou a fama de Brando como veneno de bilheteria, que perdurou até ‘O Poderoso Chefão’ e ‘Último Tango em Paris’, quando ele ressurgiu, espetacularmente, graças a Francis Ford Coppola e Bernardo Bertolucci, no começo dos anos 1970. Elizabeth Taylor ia pelo mesmo caminho – veneno de bilheteria. Hoje, o fracasso de ontem é reconhecido, por mim, pelo menos, como um clássico e uma obra-prima. Me deu a maior vontade de rever ‘Os Pecados de Todos Nós’. É daqueles filmes que só crescem.