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Luiz Carlos Merten

15 Julho 2009 | 15h38

Roberto entrou outro dia no blog – aliás, onde andam, vocês? Dois dias sem nenhum comentário… Ninguém quis nem polemizar comigo sobre ‘Harry Potter’… Estou em baixa – para observar que a Rede Brasil ia apresentar um ‘Ali Babá e os 40 Ladrões’. Havia falado no filme famosao de Jacques Becker, com Fernandel, mas o ‘Ali Babá’ da Rede Brasil era o de Arthur Lubin, com Jon Hall e Maria Montez, nem de longe tão significativo. Mas pego carona no Roberto. A Rede Brasil tem realmente apresentado uma programação interessante, inclusive resgatando clássicos que andavam fora de circuito. Pois amanhã a Rede mostra ‘O Guerreiro Branco’, com o mito do fisiculturismo, Steve Reeves. Mr. América em 1947; segundo colocado no concurso de Mr. Universo de 1948, Steve Reeves ia começar no cinema pela mão de Cecil B. de Mille, que queria que ele fosse o Sansão de Hedy Lamarr, mas Cecil também exigia que Steve criasse mais massa muscular e ele não topou. Steve Reeves foi ser astro de fantasias mitológicas na Itália, na segunda metade dos anos 50. Sem viadagem, ele foi o mais belo Hércules do cinema e nem o semideus devia ter aquele corpo que vocês podem pesquisar navegando na internet. Em 1959, ele foi Agi Murad, o Diabo Branco, numa aventura que o italiano Riccardo Freda adaptou livremente de Gogol. Steve fazia caucasiano que liderava bravos das montanhas na luta contra o czar da Rússia. ‘Agi Murad, Il Diavolo Bianco’… Hoje em dia ninguém fala mais em Riccardo Freda – nem em Vittorio Cottafavi, outro grande – mas, há 50 anos, em plena (r)evolução da nouvelle vague, ‘Cahiers du Cinéma’ se lixava para os italianos de prestígio – Visconti, Fellini e Antonioni –, enquanto celebrava a arte de Cottafavi e Freda. Homem de cultura, Freda foi escultor, crítico de arte e roteirista, tendo resistido ao neo-realismo para se dedicar, desde 1942 – com “Don Cezare Bazan’ – a um cinema popular de aventuras ou do melodrama. Se a memória não me falha, e espero que não esteja falhando, ‘O Guerreiro Branco’ é deslumbrante, co-estrelado por Georgia Moll. Freda veio ao Brasil para dirigir, aqui, uma versão de ‘O Guarani’. Tomou gosto e fez também ‘O Caçula do Barulho’, com Anselmo Duarte e Gianna Maria Canale, com quem foi casado. Ela, uma ex-Miss Itália, foi para ele ‘Teodora, a Imperatriz do Bizâncio’, no que mais parecia uma versão dissimulada da história de Messalina. Lembro-me perfeitamente de Teodora perseguida pelo homem a quem fez cegar e ele agora avança sobre ela, para se vingar. Riccardo Freda dirigiu filmes de terror com o pseudônimo de Robert Hampton e spaghetti westerns como George Lincoln. Tenho até medo de fazer essa recomendação, mas eu gostava tanto de ‘Agi Murad’. Lá vamos nós em busca do tempo – ou do autor… – perdido.