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Luiz Carlos Merten

03 Outubro 2006 | 15h58

Arrisco-me a levar paulada, até porque vou falar de ouvido – de ouvir falar. Meu editor, Dib Carneiro, diz que coleguinhas da crítica caíram matando no documentário de Cacá Diegues e Rafael Dragaud, dizendo que Nenhum Motivo Explica a Guerra é institucional do Afro-Reggae. Também acho que é institucional, tradicional (não convencional) e seja lá que outro ‘nal’ você queira encontrar. Mas é bom. As montagens paralelas são bem feitas, os depoimentos têm a qualidade da coisa vivida. Não entendo direito o ponto. A idéia é que seria necessário um documentário desmistificador, procurando os podres, quem sabe a corrupção do Afro-Reggae, para falar num tema da moda? É isso? O problema não é tanto ser institucional, mas ser bom. Não quero exagerar, mas Cartola, que é melhor, mais criativo, poderia ser um instituicional sobre o compositor. Ou não? Nelson Freire, então, é um superinstitucional sobre o grande pianista e, neste, caso, perdão, João Moreira Salles, nem acho que o filme seja tão criativo assim. Me incomoda muito a maneira de filmar o recital, o piano. Talvez não exista outra, mas, pela repetição, o filme ficou, para mim, muito previsível. Eu já sabia o plano que João ia usar. Acho que as histórias de vidas contadas pelo Cacá e pelo Rafael em Nenhum Motivo Explica a Guerra são emocionantes. A mim, emocionaram. Fiz uma ponte legal, na minha cabeça, entre o depoimento do Júnior, por exemplo, e Proibido Proibir, de Jorge Durán, do qual gostei mais, é verdade. E que raio de institucional é este em que o entrevistado diz que já deu muito pontapé em baile funk, que já deve ter matado gente sem nem saber. Ou então que confessa que teve tanta raiva da polícia que quis pegar em armas e matar (como diz o Alexandre Rodrigues na ficção de Proibido Proibir). OK. Nenhum Motivo é um institucional do Afro-Reggae (já escrevi isso ontem). Não é o melhor documentário do cinema brasileiro, mas é forte, é bonito. E aquela conquista da cidadania pelos garotos do grupo vale qualquer institucional.