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Luiz Carlos Merten

18 Julho 2007 | 09h16

Estou arrasado. Cheguei hoje na redação do Estado e fui dar uma olhada nas capas dos principais jornais do País, ainda tentando entender a tragédia de ontem. Passei por casa, a caminho de uma pauta, ontem no final da tarde, e o porteiro do prédio me chamou para olhar alguma coisa na TV dele – a imagem de um avião em chamas, uma coisa de cinema, mas real. Guardadas as proporções, me veio a imagem daqueles aviões chocando-se com as torres gêmeas em Nova York, primeiro um, depois o outro. Lembro-me de que quando vi aquilo – no tráfego do jornal Estado, esperando carro para ir para uma cabine de imprensa, pois foi pela manhã –, não entendi direito. Tomei um susto quando vi o início do desabamento do prédio. Naquele momento, não houve ideologia nem ser contra Bush ou o imperialismo americano. A sensação foi de horror. Não sei, mas às vezes, em vôos nacionais ou internacionais, quando me sento à janelinha (prefiro o corredor) e fico olhando lá do lado, vejo aquelas casinhas tão pequenas e sempre tenho a mesma sensação. De tão longe, a gente nem consegue imaginar que sejam casas, e contenham pessoas, famílias inteiras. Imagino que, numa guerra, seja isso que facilite os bombardeios. Atirar uma bomba vendo uma pessoa ser destroçada exige uma cabeça de terrorista, um fanatismo absurdo ou, então, simplesmente, um comportamento de psicopata que mereceria estar confinado. Da confortável distância do alto, é como matar formiguinhas no chão. Quem já não matou? A gente mata e nem pensa. Eu confesso que penso em Machado de Assis, a morte da borboleta preta, que leva Bentinho (é ele, não?) a se perguntar – mas por que ela não era azul? Divago, mas é que no fundo eu estou mesmo angustiado. O avião vinha de Porto Alegre, com mais de 170 pessoas a bordo. Não haverá pelo menos uma a quem eu conheça, ou tenha conhecido, meu Deus? E, independentemente de conhecer ou não, vivo viajando, vivo em aeroportos. Como não ser tocado por semelhante tragédia? E ela foi anunciada, como o ataque ao World Trade Center também vinha sendo anunciado. Lembro-me de que na época do fechamento da Varig li uma reportagem, no próprio Estado, sobre a alta qualificação do pessoal da companhia, pilotos e aeromoças que ganhavam bem mais do que seus colegas de outras empresas. O teor da reportagem era de que muitos teriam de buscar carreira no exterior, porque não tinham condições de ser absorvidos pelas companhias hegemônicas, na fase pós-Varig, a Gol e a Tam. Isso desenvolveu um pensamento em mim, imagino que equivocado. Sempre achei os pousos da Gol muito ruins. Lá vamos nós pipocar na pista, pensava a cada vez. No fundo, achava que os pilotos é que eram desqualificados. Enquanto isso, o dono da empresa ia para a capa de revista como modelo de empresário do novo capitalismo brasileiro. E eu, velho e romântico esquerdista, pensando com meus botões – claro, com este desrespeito pela segurança dos passageiros, pelo serviço de bordo, pelo sei-lá-mais-o-quê. Quando fui à Grécia, no ano passado, o vôo de Atenas para Salônica, sede do festival de cinema que homenageava o Brasil, foi numa companhia local, pequenininha, mas com o melhor serviço de bordo que já vi. Vai falir. Gastando daquele jeito, a relação custo/benefício por passageiro deve ir para as cucuias. O negócio é ser rentável. Diminuir custos, aumentar o lucro. A verdade é que essas pessoas, pilotos, co-pilotos, pessoal do serviço de bordo, está todo mundo morrendo, também. A Tam conseguiu se consolidar, no passado, graças a uma campanha muito bem orquestrada, porque era impossível uma companhia aérea ganhar credibilidade com todos aqueles acidentes, ou aviões caindo. Todo poder à propaganda. Agora a gente lê que as obras de reforma da pista de Congonhas não haviam sido devidamente concluídas. Claro que a culpa já está sendo colocada no piloto. Pode até ter havido erro humano, mas o cara morreu. Isso é dramaturgia – o herói trágico que paga com a vida. Não resolve o problema da pista. A questão é a insegurança, o desrespeito e, mais que isso, o desprezo pela vida. Atinge governo, controladores de vôos, a Infraero, as empresas aéreas. Bem-vindos ao pesadelo do admirável mundo novo da globalização, onde só o que importa é o mercado e, obviamente, o lucro que ele pode acarretar. Ah, sim. Já que o blog é, basicamente de cinema, vamos fazer, como se diz, um link. Nunca gostei da série Aeroporto. Do jeito que as coisas andam, aqueles disaster-movies poderiam continuar a ser feitos como documentários, e nos aeroportos do Brasil. Cansei. Não quero mais ver este filme.