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Luiz Carlos Merten

16 Abril 2012 | 18h13

Do diretor, confesso que não tenho muito o que falar. Adriano Stuart dirigiu um monte de filmes dos Trapalhões – e até os programas do grupo na televisão – e também fez comédias como ‘Kung Fu contra as Bonecas’ e ‘Não se Faz Amor Como Antigamente’. O segundo, na verdade, era um daqueles filmes em episódios e Adriano Stuart dirigiu o último – os outros eram de Anselmo Duarte e John Herbert -, sobre homem que chega em casa a tempo de ver o amante da mulher pulando a cerca. Ele não comenta nada, mas inicia sua busca, tentando descobrir quem possui na perna uma flor de lis, a única coisa que viu, marcou e que poderia ajudar a identificar seu desafeto. Esse Adriano Stuart, o diretor, não me interessa particularmente, ou não me interessa nada, sorry. Mas há outro que, para mim, surgiu depois e esse sempre me encantou, o Adriano ator de Beto Brant (‘Os Matadores’), Ugo Giorgetti (‘Boleiros’) e, principalmente, Flávio Frederico (‘Urbânia’). Sempre achei incrível, no melhor sentido, que um cara formado no humor pastelão e na Boca pudesse ter aquela distinção de gentleman, que lhe era natural – no porte, nos gestos -, por mais decadentes que fossem seus personagens. Faz muito tempo que não revejo o longa de Flávio Frederico. É um jovem diretor que respeito, mesmo gostando mais de ‘Caparaó’, seu documentário, e ‘Urbânia’ que de ‘Boca do Lixo’, com sua representação do lendário Hiroito. ‘Urbânia’ é sobre dois perdidos que caem na noite de São Paulo, a bordo de um conversível. Um velho motorista malandro (Adriano) e um cego que já viveu dias melhores (Turíbio Ruiz). Não acontece muita coisa, ao contrário de ‘Boca do Lixo’, que tem muita coisa, mas  é um dos filmes que, para mim, mais retratam a degradação de São Paulo, essa metrópole que, como o par de protagonistas, tenta manter sua dignidade, especialmente naquele Centro tão caído (apesar das tentativas de transformá-lo). Adriano Stuart morreu de parada cardiorrespiratório ontem, domingo. Tinha 68 anos, dois anos a mais que eu.