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Luiz Carlos Merten

27 Julho 2008 | 18h03

Youssef Chahine morreu hoje num hospital do Cairo, aos 82 anos. Há quatro semanas ele teve uma hemorragia cerebral e entrou em coma. Nem chegou a recobrar a consciência. Youssef quem? Leon Cakoff já andou mostrando alguma coisa dele na Mostra e ‘O Destino’, premiado em Cannes, teve lançamento comercial no Brasil, mas Chahine permanece secreto. Não digo que ele fosse fácil – o colorido de seus filmes e a cantoria são muito kitsch, mas aí o problema é cultural. Tudo isso é próprio do cinema egípcio. O importante é que Chahine lutou sempre pela liberdade de expressão. Outro de seus filmes, ‘O Imigrante’, de 1994, por aí, desagradou às autoridades religiosas, que invocaram o Corão para pedir sua proibição. Chahine foi chamado de blasfemo por ter dado rosto ao profeta José, o que é proibido no Corão. Antes disso, já tinha sido chamado de obsceno por abordar a sexualidade feminina. Nos últimos anos virou um crítico implacável do extremismo islâmico em ascensão nas instituições e na sociedade egipcias, o que só fez aumentar o número de seus inimigos. Entrevistei-o certa vez em Cannes. Era francófono, o que não o impediu de denunciar o colonialismo francês em ‘Adieu Bonaparte’, no qual Patrice Chéreau é ator. Chahine era um tipo afetuoso, muito interessado nos ‘outros’. Na época, quis saber coisas do Brasil, nem me lembro o quê. Mais recentemente, ele deu uma ‘leçon de cinéma’ em Cannes. Lá fui eu ouvi-lo. Chahine, que os franceses consideram um mestre, disse que o mestre dele era Fellini. O grande autor italiano, tão diferente de Chahine, lhe abriu os olhos para o mundo e o cinema. Ele começou a dirigir antes de Fellini – em 1950 -, mas foi Federico quem consolidou seu desejo de fazer cinema. Chahine criou uma companhia de distribuição, a Pyramide, em associação com os franceses. Reparem quando virem os filmes. No logo, além do letreiro e da efígie de uma pirâmide, há uma assinatura dele. Para quem reza pela cartilha de Hollywood e só quer saber de filmes com pipoca e refrigerante, não representa muito dizer que era o maior diretor do mundo árabe. Mas era. Não estou ignorando os iranianos. Acontece que, tecnicamente, ou etnicamente, eles não são árabes. Uma vez cometi este engano no jornmal e recebi o maior puxão de orelhas de um leitor.