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Luiz Carlos Merten

22 Dezembro 2008 | 00h23

PORTO ALEGRE – Já é quase meia-noite, estou chegando do cinema – fui ver ‘O Menino do Pijama Listrado’ – e, quando salvar este post, já será amanhã, segunda-feira. Vi que já existem vários comentários sobre o adeus a Mulligan – do Pereira, do Severo etc -, mas, gente, entrei no Google para conferir do que ele teria morrido (já estou colocando no condicional) e não encontrei nenhuma referência à morte do diretor Robert Mulligan. Vocês têm certeza? Havia até um fórum de leitores e ninguém falava em morte. Ô Felipe, onde tu viste essa notícia? Vou suspender momentaneamente meu adeus – definitivo – a Mulligan, que foi, sim, irregular, mas cujos pontos altos são (ou foram…) altos mesmo. Deixem-me confirmar direito essa história amanhã. Para não perder o post, quero dizer duas ou três palavras sobre ‘O Menino do Pijama Listrado’. Não conheço o livro – pelo visto, um best seller – que deu origem ao filme e até assumo que, ao ouvir pela primeira vez o título, pensei que fosse um infantil. Depois, quando vi o cartaz com aquela imagem dos dois garotos separados pelo arame do campo de trabalhos forçados e vi do que se tratava, achei que seria um clone de ‘A Vida É Bela’, por aí. Não posso dizer que gostei de ‘O Menino do Pijama Listrado’ a ponto de fazer uma defesa convincente do filme a que acabo de assistir. Na verdade, tive a sensação de que a situação-chave é muito improvável, mas confesso que alguma coisa me tocou na história – as mulheres, as personagens da avó e da mãe (Vera Farmiga), o menino renegando o amigo do pijama listrado e depois pedindo perdão, o pai como representação de uma sociedade não só autoritária como autofágica. A gente vê tantos filmes sobre o horror do nazismo e dos campos de extermínio. Até hoje tenho um sentimento de incredulidade, que este filme renovou. Não duvido nem por um momento que não tenha ocorrido, como tem gente que acha – o que me espanta é sempre a mesma interrogação. Como isso foi possível? Como um homem, um regime, uma ideologia conseguiram inflamar um país inteiro e produzir semelhante aberração? E tudo isso há 60 e poucos anos, apenas. A minha idade, um pouquinho mais… Lembrei-me, em Isael, da visita ao memorial da Shoah e, principalmente, ao memorial às vítimas infantis do nazismo. É um dos lugares mais impressionantes do mundo. A sensação, lá dentro, é de que a gente está solto no espaço. O arquiteto, com certeza, quis produzir essa sensação para reforçar a idéia de que as crianças mortas pelos nazistas são anjos. A gente entra naquela escuridão e parece estar no firmamento, entre milhares de luzes que brilham como estrelas, mas não, são velas. De fundo, uma voz repete, sem parar, os nomes das vítimas documentadas do nazismo. Mordecai, 4 anos, Shmuel, 8, Jacob, 12. Milhões de nomes desfiados como num rosário. Não diria que ‘O Menino do Pijama Listrado’ é um bom filme, mas gostei de vê-lo. O filme me devolveu parte da emoção que tive ao visitar aquele memorial em Israel. Mulligan fica para amanhã. Ele espera, perdoem-me por ser melodramático, pelo meu pranto.