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Cultura » Adeus, Gafanhoto

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Luiz Carlos Merten

04 Junho 2009 | 15h48

Morreu David Carradine. E que coisa – o cara foi encontrado nu, escondido num armário e estrangulado. A polícia trabalha com a hipótese de suicdídio. Situação mais esquisita… Acho que existem duas maneiras de tentar fazer o necrológio de David Carrsadine. Os mais velhos vão se lembrar de que ele estrelou a série ‘Kung Fu’, criando aquele personagem do ‘Gafanhoto’ que ia tomando lições de vida conjuntamente com as posições (e golpes) que seu mestre ia lhe ensinando. ‘Kung Fu’ foi, nos anos 70, a porta de entrada de toda uma geração para o universo das artes marciais. E o interessante é que o filme trabalhava o universo das lutas com base no formato do western, somando duas culturas de ação. Temo estar dizendo bobagem, mas um dos criadores era o Jerry Thorpe, que havia feito, até onde me lembro, um bangue-bangue poderoso, ‘A Pistola do Mal’, com quem mesmo? Glenn Ford? Simultaneamente com o seriado, na TV, nos 70, eu via os filmes dos Shaw Brothers que chegavam ao Brasil (e em Porto eram invariavelmente exibidos naquele cinema da Borges de Medeiros, o Continente, que depois mudou de nome e virou Lido. Era isso?) Mais recentemente, e ele foi escolhido por seu passado, David Carradine foi o Bill que Uma Thurman procurava para matar em ‘Kill Bill’, volumes 1 e 2, de Quentin Tarantino. Durante todo o tempo, Bill é essa figura misteriosa a que tosdos se referem, mas que nunca aparece. Ele chega só para o confronto final. Tarantino precisava de um ator de carisma, com forte personalidade. David Carradine foi a escolha perfeita para o papel. Foi também um belo fecho para a carreira dele. Não acredito – ou não lembro – de que tenha feito alguma coisa depois, embora estivesse em Bangoc, justamente filmando. Filho do ator fordiano John Carradine e irmão de Keith Carradine – que ganhou o Oscar de canção, ‘I’m Easy’, por um filme de Robert Altman, o melhor, para mim, do diretor, ‘Nashville’ -, David filmou com Scorsese (‘Boxcar Bertha’, aliás, ‘Sexy e Marginal’, com Barbara Hershey, uma espécie de filhote de ‘Bonnie & Clyde’, de 1972) e Bergman (‘O Ovo da Serpente’, de 1979). Não vou dizer que David Carradine fosse um grande ator, porque não era, mas me dou conta, ao escrever essas linhas, de que muito lhe devo, mais até do que pensava.

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