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Adeus às ilusões

Luiz Carlos Merten

12 Setembro 2011 | 01h04

E a retrospectiva de Vincente Minnelli – cinema de música e drama – terminou hoje no CCBB. Na sexta, havia visto ‘Herança da Carne’, Home from the Hill; no sábado, ontem, ‘Brigadoon’, A Lenda dos Beijos Proibidos; e, há pouco, ‘Adeus às Ilusões’, com aquela trilha magnífica de Johnny Mandel, incluindo a canção ‘The Shadow of Your Smile’, com letra de Paul Francis Webster. Impressionou-me a construção operística, num crescendo dramático, de ‘Herança’. Minha maior decepção em toda essa programação foi ‘Brigadoon’, que, no entanto, tinha tudo para ser 100% minnelliano. Os dois caçadores que entram no mundo de sonho de Brigadoon, cidade que desperta por um dia a cada 100 anos, proporciona o tipo de choque entre realidade e fantasia, ou sonho, que tanto fascinava Minnelli. Mas o filme me pareceu desastroso, ou quase. Fui à autobiografia de Minnelli, ‘Tous en Scène’, e me consolou saber que ele não tinha muito apreço por ‘Brigadoon’ e só aceitou fazê-lo porque foi chantageado pelo produtor Arthur Freed, o único que acreditava no projeto. Face às reticências do diretor, Freed enviou-lhe um telegrama de Joseph Ruttenberg, que dizia que, por amizade a ele, e só pela amizade, aceitava assinar a direção de fotografia. Depois disso, Minnelli, que tanto devia a Freed, não teve como dizer não. Mas ele não acreditava no projeto, detestava o cinemascope, que lhe foi imposto, e a gota d’água, o verdadeiro pesadelo, foi quando o estúdio desistiu de filmar na Irlanda e construiu a cidade de Brigadoon em Culver City, onde ficava a Metro. O cenário era gigantesco, possibilitando que a câmera fizesse movimentos de 360 graus, mas Minnelli argumentava que uma fantasia como aquela só faria sentido se fosse filmada em ambientes naturais. Não houve jeito. Para complicar, o próprio Gene Kelly, como o protagonista, não gostava da ideia de transformar um espetáculo cantado – a origem da peça – em outro dançado. De volta da França, ele estava convencido de que o musical estava com os dias contados e dava a impressão de querer se livrar, antecipadamente, do ‘defunto’. Com raros momentos de exceção, o filme não funcionou para mim, ao contrário de ‘Adeus às Ilusões’, The Sandpiper, que foi uma (re)descoberta. Para o bem da verdade, o próprio Minnelli confessava que nunca ficou muito satisfeito com o filme. Ele achava o roteiro de Dalton Trumbo e Michael Wilson muito pretensioso, mas eu gosto de todas aquelas discussões filosóficas em que está embasado, sobre a origem do homem e os limiotes da sua liberdade, estabelecidos pelo convívio social. Trumbo e Wilson, como esquerdistas de carteirinha, haviam conhecido o inferno no macarthismo e agora professavam sua fé no homem e na sociedade. Minnelli também não gostou nem um pouco do clima de histeria no set, quando a produção se deslocou de Big Sur para um estúdio na França. Elizabeth Taylor e Richard Burton ganhavam tanto dinheiro que, para escapar ao fisco, não podiam trabalhar mais do que quatro semanas nos EUA. Na Europa, foi impossível controlar o assédio da imprensa à dupla. A própria história desagradava a Minnelli porque lhe parecia uma atualização da saga do reverendo Davidson e de Sadie Thompson (na peça ‘Chuva’). Mas eu amei, e tudo perdoei, inclusive as convenções dos figurinos de Liz, assinados por Irene Sharaf, e as poses em que Minnelli a coloca, sempre deitada, como a Maja, em momentos decisivos do drama (e dos diálogos). Aquilo é muito brega, mas dá para perceber que ela amava Burton, apaixonadamente. Ele gostava tanto do projeto que, num determinado momento, chegou a querer dirigí-lo, mas o estúdio não deixou. William Wyler foi chamado e declinou. Minnelli topou porque estava fascinado pelo casal e suas motivações. Liz queria interpretar essa mulher livre e, no fundo, pensava ser a própria Laura, desafiando convenções. Burton queria ser o pastor que supera suas inibições pela força do amor. Ambos estavam pessoalizando os personagens. O filme é a história de uma reconciliação. Vai na contramão de ‘Brigadoon’. É preciso viver com a realidade e adequar os sonhos à medida humana, mas sem abrir mão deles. É o filme mais sereno de Minnelli ­– mesmo a antissocial Laura aprende a viver em sociedade. Não existe essa coisa sonhada, o paraíso absoluto, destituído do homem. Mesmo no mundo ‘perfeito’ de Brigadoon havia a serpente, o jovem exaltado que queria partir, embora isso implicasse no risco de destruiição do equilíbrio sobre o qual repousava o sonho coletivo da cidade perdida na bruma. Em ‘Adeus às Ilusões’, a pintora que se recusa a retratar o homem nas telas finalmente o introduz em suas criações, e ele é o menino, seu filho. Sempre a criança, no cinema de Minnelli, e madura. Amei esse ciclo e todo dia, toda noite, descendo por aquelas ruas para cruzar o Anhangabaú – sem medo de tanta gente debaixo das marquises ou parada em grupos que eu tinha de cruzar, no meio da rua -, pensava sempre em meu amigo Jefferson Barros, que tanto amava Minnelli. Lembro-me da belíssima análise que ele fez da abertura de ‘Adeus às Ilusões’ e de como todas aquelas cenas, até que o menino mata o cervo e é levado perante o juiz, com a mãe, representavam uma ideia de responsabilidade e construção social. Hoje em dia, se as coisas não são explícitas – como um letreiro piscando -, ninguém percebe mais nada. Pois não houve críticos que, fazendo o inventário do cinema pós-11 de Setembro, omitiram a trilogia de Steven Spielberg? Claro, não estava escrito que era sobre isso e, para descobrir, eles teriam de pensar fora dos estreitos limites de suas convicções. Arre!

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