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Cultura » Adeus ao pioneiro

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Luiz Carlos Merten

30 Janeiro 2012 | 16h53

Morreu Linduarte Noronha. Linduarte quem? O pioneiro do Cinema Novo, o precursor do ciclo paraibano, o criador do antológico ‘Aruanda’, que fez a cabeça do jovem Glauber Rocha, conforme ele relata na Revisão Crítica do Cinema Brasileiro. Fui poucas vezes ao Festival de Brasília, e menos ainda como enviado do jornal para fazer a cobertura do evento. Numa dessas vezes, 2000 ou 2001, houve um grande debate para discutir o documentário e ‘Aruanda’ estava na pauta. O curta de 1960 completava 40 anos. Linduarte, advogado de formação, jornalista por experiência e cinéfilo por amor a Alberto Cavalcanti e Humberto Mauro, disse certa vez que o caminho para a universalização do cinema brasileiro passava, obrigatoriamente, pelo elemento antropológico. Para prová-lo, fez o curta sobre uma família de quilombolas no alto sertão da Paraíba. Um documentário encenado, em que boa parte, senão todos os gestos retratados diante da câmera, foram (re)criados para ela. Em Brasília, o que se discutiu, quatro décadas mais tarde, é se o documentário encenado mereceria, ainda assim, a definição de ‘documentário’ – como se o clássico ‘Nanouk, o Esquimó’, de Robert Flaherty não tivesse sido encenado em 1921/22. Linduarte foi homenageado, anos mais tarde, pelo Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade. Era um velhinho que parecia frágil, mas, como bom sertanejo – nascido em Pernambuco, paraibano de adoção – devia ser um forte. José Nêumane, que veio comentar comigo a morte, disse que o jovem Linduarte, na época de ‘Aruanda’, era chamado de ‘Gordo’. Não foi assim que o conheci, brevemente. Ele foi um animador cultural, formando uma geração de cineclubistas em João Pessoa e incorporando, como assistente, o futuro diretor Vladimir Carvalho. Linduarte fez mais um curta, ‘O Cajueiro Nordestino’, em 1962. Nove anos mais tarde, em 1971, fez, a duras penas, com pouquíssimo dinheiro, ‘O Salário da Morte’, que Amir Labaki resgatou durante a homenagem que lhe prestou no É Tudo Verdade. Um matador de aluguel mata político numa cidadezinha do interior, é caçado, morto e com ele é chacinada a família que lhe dava abrigo. Ao contrário dos curtas, o filme não obteve grande repercussão, numa daquelas fases em que o cinema brasileiro estava envolvido nma interminável discussão sobre mercado – e, no começo dos anos 1970, a pornochanchada já começava a dar as cartas. Vladimir Carvalho certa vez me falou com reverência de Linduarte, reconhecendo o quanto a Paraíba, o Cinema Novo, o Brasil (e ele) deviam ao pioneirismo do ‘velho’. Não sei, mas ando meio nostálgico nos últimos tempos. Desde a morte de Daniel Piza, na virada do ano, tenho repensado muita coisa, sobre a vida, mais que o cinema. A morte de Theo Angelopoulos na semana passada me atingiu muito, confesso, e a de Linduarte completou essa sensação de… Perda? Abandono? Linduarte conseguiu fazer um filme fundamental fora do eixo, e numa época em que era difícil filmar mesmo no Centro-Oeste, pelo menos o tipo de cinema crítico, exigente, do qual foi precursor. Pouco antes de ‘Aruanda’, em 1959, Paulo César Saraceni havia feito ‘Arraial do Cabo’ e, na trilha aberta por ambos, vieram ‘Cinco Vezes Favela’, ‘Barravento’. É uma história que vale resgatar, e lembrar, no momento em que a Paraíba enterra Linduarte Noronha. Ele morreu de parada respiratória na UTI de um hospital de João Pessoa. Estava internado há uma semana, por coimplicações decorrentes de uma pneumonia. Será enterrado às 6 da tarde. Vá em paz, Linduarte.

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