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Cultura » Adeus ao cafajeste arrependido

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Luiz Carlos Merten

27 Novembro 2006 | 20h06

Que coisa! Estava em plena reunião de pauta do Caderno 2 quando o editor, Dib Carneiro, recebeu o telefonema avisando da morte de Jece Valadão. Ele estava internado no Hospital Panamericano, aqui em São Paulo. Morreu às 17h20, em decorrência do agravamento de um quadro que começou como insuficiência renal. Jece faz parte do meu imaginário como do de qualquer espectador de cinema brasileiro das últimas décadas. Nos anos 50 e 60, esculpiu a imagem do machão, pela qual se tornou conhecido. Ninguém foi mais cafajeste do que Jece no cinema brasileiro, persona que ele consolidou ao filmar Os Cafajestes, de Ruy Guerra, em 1962. Antes disso, já cavara seu espaço na história do cinema brasileiro, filmando, em 1955/56, Rio 40 Graus e Rio Zona Norte, de Nelson Pereira dos Santos, no alvorecer do que viria a ser o Cinema Novo. Com Nelson fez ainda Boca de Ouro, baseado na peça de Nelson Rodrigues. E trabalhou com Glauber no polêmico último filme do autor, A Idade da Terra, em 1980. No total, fez mais de cem filmes, como ator, produtor e até diretor. Muitos, vamos ser honestos, são de uma ruindade atroz, mas isso nunca abalou a importância acordada pela crítica e pelo público a Jece. Ele próprio admitia ter tido uma relação um tanto litigiosa com o pessoal do Cinema Novo. Admirava muitos diretores, mas dizia ter sido usado para resolver problemas do coletivo durante a ditadura militar. “Eles eram comunistas; eu nunca fui”, disse, certa vez, não me lembro se exatamente com estas palavras. Se já era polêmico, Jece ficou mais polêmico ainda ao se converter, em 1995, ao protestantismo. Virou pastor de almas, tentando evangelizar pecadores como ele. No ano seguinte, escreveu um livro autobiográfico, Memórias de Um Cafajeste, no qual não renega tudo o que fez, mas se arrepende sinceramente. No ano passado, encontrei-o no Rio, na apresentação do elenco de Filhos do Carnaval, a série de Cao Hamburger na HBO, na qual fazia o bicheiro. Foi meu único encontro com ele. Jece dizia que, ao se voltar para o próprio passado, com freqüência se perguntava – ‘Será possível que fiz tudo isso?’ Ele trabalhava no novo filme de Zé do Caixão, Encarnação do Demônio, quando foi hospitalizado. Sua participação ainda não estava concluída, o que significa que José Mojica Marins e o produtor Paulo Sacramento, da Olhos de Cão, terão agora um senhor problema para resolver. Jece tinha 76 anos. Nasceu em Murundu, em 1930. Alguém me corrija – não consegui saber se esta cidade é no Rio ou no Espírito Santo. Se ninguém me der a informação, pesquiso amanhã. Agora, tenho de ir correndo para um compromisso – assistir à leitura da peça de Célia Forte, no Masp. Vou triste, como fiquei triste com a morte de Altman, de Philippe Noiret, de Betty Comden.São muitos mortos queridos. Agora, chega, por favor!