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Adeus ao artista que partiu na viagem dos saltimbancos

Luiz Carlos Merten

20 Janeiro 2016 | 20h31

BOGOTÁ – Deus é testemunha de que tentei postar ontem, tão logo Dib Carneiro me passou a informação de que Ettore Scola havia morrido. Ettore Scola! Antes, permitam-me situá-los. Saímos no sábado do Brasil, meu amigo Dib, o filho dele, Heitor, e eu. Fomos para Cartagena, onde ficamos até a manhã de hoje. Viemos para Bogotá. O hotel de Cartagena, embora bem situado – na Ciudad Vieja, murada, na Plaza del Reloj -, tinha seus inconvenientes. Baladas todas as noites, até 4 da matina, e o som entrava no quarto como se estivéssemos em plena pista. Para complicar, a internet funcionava apenas em certos setores, porque estava em reparo. Dib e Heitor conseguiam se comunicar via I-Phone e I-Pad, mas quem diz que o meu laptop funcionava? Cartagena das Índias! Lá, morou Gabo, Gabriel Gárcia Márquez, ia escrever que também morreu, mas não, foi na Cidade do México. Suas cinzas é que foram transladadas para Cartagena, onde foram filmados Crônica de Uma Morte Anunciada e O Amor em Tempos de Cólera, duas adaptações de romances dele, por Francesco Rosi e Mike Newell. Lá também foi filmado Quemada, de Gillo Pontecorvo. Marlon Brando andou por aquelas ruas nos anos 1960 e há quem diga, entre os moradores, que a vida na cidade se divide em antes e depois de M.B. Enquanto buscava o último vestígio dessa passagem de Brando pela pérola dos flibusteiros do Caribe, a casa em que foram filmadas cenas importantes de Quemada, pensava, com meus botões, na degradação do grande cinema italiano. Não apenas Luchino Visconti, Michelangelo Antonioni e Federico Fellini, mas também Vittorio De Sica, Roberto Rossellini, Pier-Paolo Pasolini, Damiano Damiani, Elio Petri, Francesco Rosi, Pontecorvo. Todos mortos. E os grandes da comédia – Dino Risi, Mario Monicelli, Luigi Comencini. Restavam os irmãos Taviani e Ettore Scola. Foi-se agora, aos 84 anos, Scola. Encontrei-o uma vez, apenas, e nem foi por um filme do qual goste particularmente – Romanzo di Un Giovanne Povero. Scola foi roteirista antes de ser diretor. Fez aquele docudrama sobre sua relação com Federico Fellini, Que Estranho Chamar-se Federico, e eu confesso que achei o filme de um narcisismo irritante. Scola considerava-se tão grande quanto Fellini – na Terra do Nunca, talvez. Seus últimos filmes haviam sido decepcionantes, mas nos anos 1970 e 80, sua melhor fase, ele foi grande. Estávamos no Café del Mar, à espera do por do sol, quando Dib me passou o recado do pessoal do jornal. Foi tão simbólico. O sol se pondo, uma pandorga – uma pipa – agitando-se no ar, o que me remetia à infância, uma gaivota que voava em círculos, tentando arremeter contra o vento, que estava forte. Entreguei-me aos pensamentos, às lembranças. Cada um terá seu Scola preferido. Dib leu-me alguns posts do Facebook. Meu amigo Vilmar Ledesma chorando o autor de Nós Que nos Amávamos tanto, Adriana DelRe, o de Um Dia Muito Especial e Jotabê Medeiros, que escreveu um texto lindo evocando Feios Sujos e Malvados, com aquela relação familiar torta e o filho que envenena o pai. Scola escreveu belíssimos papeis para atores e atrizes emblemáticos da Itália. Marcello Mastroianni, Sophia Loren, Vittorio Gassman, Monica Vitti, Steffania Sandrelli, Giancarlo Giannini. Ciúme à Italiana, Noi Che C’Eramo tanti Amati, Brutti Sporchi Cattivi, Uma Giornatta Particolare, O Baile, Casanova e a Revolução. Amo todos esses filmes, mas o meu preferido, o meu Scola do coração, é A Viagem do Capitão Tornado, adaptado do capitão ‘Fracassa’ de Theophile Gautier. Scola reinventou e transformou em belíssimo cinema a tradição da commedia dell’arte. O Sinognac de Vincent Perez, o Pulchinella de Massimo Troisi fazem parte do meu imaginário. Pulchinella é sublime. Scola foi um artista politizado que refletiu sobre os impasses da esquerda italiana no pós-terrorismo, que levou ao fortalecimento da direita com Silvio Berlusconi. Mas o meu Scola não é esse mais engajado ou militante, embora a função da arte esteja no centro das discussões naquela carroça que carrega saltimbancos pelas estradas de uma Europa perdida no tempo. A Viagem do Capitão Tornado é primo-irmão de A Carroça/Carruagem de Ouro, o genial La Carrosse d’Or de Jean Renoir, com Anna Magnani, que deu o nome, Les Films du Carrosse, à produtora de François Truffaut. Senti-me órfão e chorei naquele entardecer colombiano. Mais que por Scola, chorei por mim, que estou vendo partirem, um a um, amigos do coração e grandes artistas.