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Luiz Carlos Merten

19 Agosto 2009 | 12h39

Olá, estou de volta a São Paulo. Cheguei ontem à noite e tive um dia meio agitado em Porto, o que me impediu de postar alguma coisa sobre os demais filmes que vi no Sul. Ou vocês achavam que, tão logo tivesse um tempo, pós México e pós Gramado, eu não ia ver correndo ‘G.I. Joe – O Despertar de Cobra’? Depois eu falo sobre isso e também sobre o centenário de Marcel Carné. Agora, quero falar de algo que só soube ao chegar na redação. Ubiratan Brasil me perguntou, tão logo cheguei, por que não havia feito nenhuma referência, no blog, à morte de Bernardo Vorobow? Mas eu não sabia… Pouco antes de viajar para o México, havia feito um post sobre não me lembro que grande diretor e Carlos Adriano, companheiro de Bernardo, me havia enviado um e-mail lembrando os ciclos que ele organizava na Sala Cinemateca, nos anos 80, e que ajudaram a mapear, não apenas o cinema clássico, mas os novos cinemas para uma geração de espectadores que talvez nem saiba quanto deve a esse guerreiro em defesa do cinema autoral awquyi em São Paulo. Bernardo era um doce de pessoa. Quantas vezes o encontrei no Mestiço (o restaurante)? Conversávamos rapidamente, sempre deixando para depois uma grande conversa – sobre a vida, o cinema – que agora não vai ocorrer nunca mais. Havia conversado sobre isso com minha ex, Doris Bittencourt, em Porto. Gramado sempre mexe comigo. No saguão do Cine Embaixador, o Palácio dos Festivais, existem todas aquelas placas que homenageiam amigos que já se foram. Sempre fui mais próximo de Tuio Becker do que de Luiz César Cozzatti, mas ele, Romeu Grimaldi, Paulo Fontoura Gastal (Calvero) com certeza foram importantes na minha formação. Não há uma vez que vá a Porto Alegre e não me lembre de meu amigo Sérgio Moita. Aos 60 e poucos anos – quase 64 –, sou um sobrevivente. Somos, como me observou a Doris… Em Gramado, almocei com o Marcos Mello, da revista ‘Teorema’, programador justamente da sala P.F. Gastal, na Usina do Gasômetro. Marcos me reportou o sumiço de Valdir Enor Koch, que ninguém sabe onde está. Este foi fundamental para mim. Tinha 14/15 anos e estudava no Julinho, o Colégio Estatual Júlio de Castilhos, em Porto, quando descobri o mural de estudantes, no qual Valdir escrevia suas críticas. Nem sempre concordava com ele – nunca esqueço que Valdir deu 6, correspondente a regular, para ‘Psicose’ (numa classificação de 0 a 10) –, mas lia tudo o que escrevia e, na verdade, foi seguindo seu exemplo que publiquei no mural livre da Faculdade de Arquitetura da UFRGS minha primeira crítica (sobre ‘Um Clarim ao Longe’, de Raoul Walsh). Além de responsável por ciclos que marcaram época na fase áurea da Cinemateca, Bernardo foi produtor dos filmes experimentais de Carlos Adriano. De ‘Remanescências’, por exemplo. Cheguei a São Paulo em dezembro de 1988. Peguei o finzinho desses grandes ciclos da Cinemateca. Hoje, a instituição tem aquela sede linda no antigo Matadouro, mas a sala me parece fora de mão e eu não a frequento mais (salvo em ocasiões especiais). Estive lá outro dia, em busca de informações para uma matéria sobre restauro e o lugar me encantou, mais até do que nas vezes anteriores. Tem um jardim interbno maravilhoso. poderia ter, quwem sabe, um belo resataurante, como o Museu da Casa Brasileira (ainda tem? Comi lá algumas vezes e tenho excelente lembrança do espaço.) Hoje em dia os jovens não precisam mais ir à Cinemateca em busca dos clássicos. Eles têm o DVD, baixam velhos filmes na internet. Claro que não é a mesma coisa, mas eles não se importam. Compreendo – eu também não me importava de ver grandes filmes dublados na TV, que, num determinado momento, foi minha cinemateca. Em Porto, havia o Clube de Cinema, mas nunca fui sócio. Devo minha formação básica às cinematecas uruguaia e argentina, mas isso foi mais tarde, nos anos 70, quando comecei a viajar regularmente para o Prata. A morte do Bernardo está me fazendo viajar nas lembranças. Unia-nos, mesmo que de forma tênue, o amor pelo cinema. Adeus, amigo.