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Luiz Carlos Merten

23 Março 2007 | 10h37

Fui ver ontem Adeus, América na abertura do Festival Internacional de Documentários É tudo Verdade, no CineSesc. Amir Labaki, criador do evento, que me perdoe, mas chegou um momento em que quase desisti. Após meia hora de atraso (o que já é de praxe, azar de quem é pontual), seguiu-se outra meia-hora interminável em que representantes de cada um dos patrocinadores ou apoiadores subiu ao palco para ‘uma palavrinha’. Repetiu-se, mais ou menos, a sensação que tenho quando estou em festivais internacionais – Berlim, por exemplo, em fevereiro – e passam filmes brasileiros. Foram vários na Berlinale este (O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias na competição, Casa de Alice e Deserto Feliz nas mostras paralelas) e em todos a reação do público foi a mesma. As pessoas riem porque já sabem que quando o filme é brasileiro é aquela festa – logos da Ancine, da Secretaria do Audiviosual, do Ministério da Cultura, eventualmente da RioFilme, da Prefeitura (ou do Governo) de São Paulo, da Prefeitura do Recife (ou do Governo de Pernambuco) e quando você pensa que vai acabar começam os outros logos – Petrobrás, Eletrobrás, etc, etc. É interminável e volta tudo no final! Como disse, quase desisti ontem de noite. Sei que é importante destacar quem investe em cultura, que sem essas parcerias É tudo Verdade (como vários eventos) não ocorreria, mas que é um porre, é. Ainda bem que fiquei, um pouco porque estava conversando com o Luiz Gonzaga sobre as novidades da Sala Cinemateca e com o meu amigo Wilson, que não via há tempos e foi, talvez, a primeira pessoa que encontrei ao chegar em São Paulo, há quase 19 anos. O filme, propriamente dito, foi a cereja de um bolo que estava me parecendo meio indigesto. Gostei demais de Adeus, América e do perfil que o diretor brasileiro Sérgio Oksman, radicado na Europa, faz de Al Lewis. Ele não foi apenas um ator que marcou audiências (e gerações) em todo o mundo, como o Vovô da série Os Monstros, mas foi também, e isso é novidade para mim, um ativista político que, da resistência ao macarthismo, à Guerra do Vietnã e, agora, a do Iraque, foi sempre atuante, sempre que questões de consciência o levavam a se manifestar contra sucessivos governos americanos. Fiquei com um monte de indagações na cabeça, que espero responder, hoje ou amanhã (é mais provável), entrevistando o diretor. Como e por que este filme foi feito na Espanha? Como Sérgio Oksman conseguiu que o produtor Elias Querejeta, dos filmes de Saura, se envolvesse no projeto? Carrego comigo também algumas observações feitas pelo Lewis, que morreu no ano passado. Ele diz que, por sua oposição ao ‘imperialismo’ ianque, sempre ouviu desaforos do tipo ‘EUA, ame-os ou deixe-os’ – coisas como por que não vai embora? A resposta é genial – porque não existe lugar, no mundo, em que ele estaria livre da intervenção da política externa americana. Genial! Mas uma coisa que me impressionou foi o seguinte. Detesto fumaça de cigarro e de charuto, então, tenho vontade de saltar no prescoço de quem fuma, mas não sou do tipo que reclama. Engulo em seco. Al Lewis estava sempre com aquele charuto enterrado na boca, que parecia deformada. Me lembrei do Freud, que também fumava charuto e um dia perguntaram se não era um símbolo fálico que ele carregava na boca e disse o Freud – não, é um charuto mesmo. Há-há-há. Pois bem. O que pensei foi isso. Existe hoje toda uma preocupação com o politicamente correto. Fumar é feio, é nocivo, enriquece os grandes conglomerados – eu sei; um de meus filmes recentes preferidos é O Informante, de Michael Mann [TEXTO]–, mas enquanto as pessoas se mobilizam para impedir que o vizinho fume as maiores atrocidades estão sendo cometidas impunemente. Só nos incomoda o que nos atinge diretamente, a fumaça do cigarro, por exemplo. O que ocorre na Amazônia, na África – e nem vamos longe, na periferia de São Paulo ou nos morros do Rio –, a gente não vê, portanto, não sente. Al Lewis viveu 90 e tantos anos, com a maior lucidez e sendo combativo até o fim. Fumava feito uma chaminé. No início estava achando o velho meio nojento, mas depois achei que até aquilo era parte de sua persona combativa. E as imagens de época que o filme apresenta – de Paul Robeson, dos depoimentos perante o Comitê de Atividades Antiamericanas do senador McCarthy, dos protestos contra a Guerra do Vietnã –, viajei naquilo tudo! Adeus, América começa com uma indagação sobre o medo. Durante todo o tempo, Lewis está sendo maquiado para uma apresentação como o vovô dos Monstros. O medo é o tema oculto de Adeus, América. Não o medo – o destemor, que Lewis aprendeu com a mãe, de viver num mundo onde governos como o de George W. Bush explora o medo para paralisar as pessoas e fazer o que bem entende. Adeus, América foi exibido ontem somente para convidados. As próximas exibições poderão ser rastreadas no site do festival, www.etudoverdade.com.br, que traz a programação, dia a dia.