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Luiz Carlos Merten

02 Agosto 2010 | 09h34

Em Budapeste, havia um jornalista italiano no grupo que visitava o set de ‘The Rite’, com Anthony Hopkins e Alice Braga. Pedi-lhe infrormações sobre Suso Cecchi d’Amico. Tinha os telefones dela em Roma, mas nos últimos tempos tentara uma ou duas vezes, sem sucesso, a comunicação. Suso morreu. Em 1991, quando a entrevistei no Festival de Veneza – onde integrava a equipe de ‘Rossini, Rossini’, de Mario Monicelli e recebeu um prêmio especial por sua obra de roteirista -, ela já estava com 70 e tantos anos (não quis me dizer o número exato). Passaram-se mais 19. Suso já ultrapasssara os 90 anos. Era meu primeiro ano no Lido e de cara eu me encontrava com uma figura tão importante. Mas a entrevista não ocorreu no Hotel des Bains, o que seria perfeito. Foi no Excelsior. Suso era uma senhora austera, elegante, afetuosa. Cabelos brancos, usava um vestido claro de corte clássico e colar de pérolas. Achei-a parecida com Barbaras Bush, a mãe do celerado George W., que, naquela época, não sabia que ia virar presidente dos EUA). Tive o privilégio de ficar um bom tempo conversando com Suso Cecchi d’Amico sobre sua parceria com Luchino Visconti, de quem foi roteirista fiel, menos nos filmes da fase alemã e ela própria me disse que acompanhou, como sempre, o processo de ‘Os Deuses Malditos’, ‘Morte em Veneza’ e ‘Ludwig, a Paixão de Um Rei’, mas só colaborava de longe por não dominar o idioma. Foram 30 anos de parceria com ‘Luchino’. Conversamos sobre Marcel Proust, o sonho viscontiano de adaptar ‘Em Busca do Tempo Perdido’, sobre ‘O Estrangeiro’, o filme de Visconti de que menos gostava, pelo inferno que foi a interferência da viúva de Albert Camus, e sobre ‘Rocco’, o meu favorito. Ela terminou por admitir que ‘Rocco’ foi um momento especial para todos. Estavam no auge, Luchino, ela. Logo veio ‘O Leopardo’, outro clássico irrepreensível, a que assisti este ano em Cannes. Estranhei que Suso não prestigiasse a exibição. Já estava muito idosa e, talvez, doente. Grandes momentos de Visconti nasceram por meio de Suso. Burt Lancaster, o ‘professor’, gritando que não é um reacionário em ‘Violência e Paixão’; Alain Delon lembrando o costume do ‘paese’, de lançar fora um tijolo quando se constroi uma casa nova, para dar sorte (e a gente logo pensa em Simone/Renato Salvatori). Sobram poucos dos artistas que criaram ‘Rocco’. O filme é o monumento à grande arte que criaram.