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Luiz Carlos Merten

27 Maio 2008 | 19h02

PARIS – Liguei hoje à tarde para o jornal e fui informado de que Sydney Pollack morreu ontem à noite. Queria postar alguma coisa, mas estava na rua e só agora estou de volta ao hotel. Espero poder salvar este primeiro post sobre o assunto, embora deva voltar a ele ao regressar ao Brasil. Que coisa! Juro que havia pensado ontem, em Pollack, e explico por quê. Há um cinema de arte pertinho da Rue Huchette, onde estou, que exibe uma programação especial dedicada a filmes vencedores da Palma de Ouro. Assisti ontem a ‘Pelle, o Conquistador’, primeira Palma de Bille August (ele ganhou outra por ‘As Melhores Intenções’, com roteiro de Bergman). Saí do cinema viajando na imaginação. August foi um narrador excepcional, mas isso foi, claro, antes de ele vender a alma às co-produções internacionais, fazendo filmes horroros como ‘A Casa dos Espíritos’, perto do qual até ‘Smilla’, que não era bom, conseguia ser pelo menos decente. Pensei comigo – o que as pessoas fazem com elas mesmas? O que a vida faz com elas? Conosco? Terminei fazendo uma ponte com Pollack, que foi grande no final dos anos 60 e início dos 70. Antes disso, eu já gostava de ‘Esta Mulher É Proibida’, um belo Tennessee Williams, com Natalie Wood, mas o ‘meu’ Pollack foi aquele que fez grandes filmes como ‘A Noite dos Desesperadois’ (They Shoot Horses, Don’t They?) e, melhor ainda, ‘Mais Forte Que a Vingança’ (Jeremiah Johnson). Pollack fez outros filmes legais – e ganhou o Oscar por ‘Entre Dois Amores’ (Out of Africa), que revi outro dia na TV paga e confesso que me encanta o romance de Karen Blixen, isto é, Isak Dinesen, isto é, Meryl Streep, com seu aventureiro inglês, Robert Redford. Pollack me deu a impressão de ter jogado a toalha, depois. Seus filmes foram ficando mornos, menos ‘A Firma’, que é um bom John Grisham, com Tom Cruise (cuja biografia não autorizada estou lendo e me deixou de cabelinho em pé, mas este é um assunto para outro dia). A partir de um momento, Pollack desistiu da direção e virou ator, embora ele tenha dado uma boa lição de cinema em Cannes, no ano em que mostrou um documentário muito interessante (seu canto doi cisne). Pollack trabalhou com Woody Allen em ‘Maridos e Esposas’ e com Stanley Kubrick em ‘De Olhos bem Fechados’. Agora mesmo, ainda deve estar em cartaz na cidade de São Paulo como o pai de Patrick Dempsey em ‘O Melhor Amigo da Noiva’. Conversei com ele rapidamente em Veneza, no ano de ‘A Firma’. Ele havia chegado pilotando seu jato. Era um sujeito bem informado e cultivado. Sua grande fase já havia passado e só foi piorando como diretor, mas não creio que, nem mesmo quando passou a fazer coisas mais anódinas, ele chegou a ser indigno. E sua grande fase foi imensa. A dureza de ‘A Noite dos Desesperados’, com aquela maratona de dança que resumia, no salão, toda a desumanidade do mundo que desabara com o crack da Bolsa, em 1929, só tem paralelo no universo mítico, pré-western – e pré-‘Dança com Lobos’ – de ‘Jeremiah Johnson’, no qual Robert Redford, que foi seu ator-fetiche, estava magnífico. Gosto da cena do barco em ‘Nosso Amor de Ontem’, as vidas de Redford e Barbra Streisand ondulando naquele mar que era uma metáfora do macarthismo. Mais tarde, Pollack criou a cena dos balões em ‘Bobby Deerfield’, seu filme sobre automobilismo, e a do avião em ‘Entre Dois Amores’, quando Redford leva Meryl Streep para conhecer, do alto, a ‘sua’ África. Esses momentos em suspenso, não em suspense, eram uma marca de Pollack, sempre atraído pela fragilidade do humano, sempre disposto a mostrar que, mesmo frágeis, homens e mulheres conseguem fazer grandes coisas. Ele fez. Não sei de vocês, mas eu lhe devo muito no escurinho do cinema.